Vinda de Pilão Arcado, sertão baiano marcado por secas, conflitos e exílios forçados, Cinobilina Gonçalves trazia no olhar a dureza da terra e, no espírito, uma coragem pouco comum ao seu tempo. Casou-se com João Dias quando este se encontrava naquela cidade acompanhando o pai, Aureliano Dias, ambos vivendo o amargor do exílio político. Não era mulher de submissão fácil. Desde cedo demonstrava firmeza de caráter, clareza em suas posições e uma disposição rara para enfrentar tempos adversos.
Ao chegar ao Caracol, município então sacudido por tensões políticas e pela presença constante de jagunços armados, Cinobilina logo compreendeu que sobreviver ali exigia mais do que resignação: exigia vigilância, coragem e prontidão. Em sua fazenda, cumpria as funções de dona de casa sem jamais se limitar a elas. Administrava a propriedade, supervisionava os trabalhadores e, sobretudo, mantinha sempre por perto a sua carabina Winchester, o rifle papo-amarelo, companheiro inseparável desde os tempos de Pilão Arcado.
Enquanto João Dias seguia os seus próceres no campo de luta, participando de ações de resistência e movimentos de guerrilha, Dona Cinobilina permanecia na retaguarda, transformando sua fazenda numa verdadeira trincheira sertaneja. Com alguns cabras de confiança, colocava-se à disposição para defender não apenas o patrimônio material, mas também a honra da família — valor sagrado em tempos de lei frágil e violência cotidiana.
Não se tratava de bravata. Cinobilina sabia manejar armas e já o havia demonstrado numa escaramuça memorável, quando um grupo de jagunços tentou invadir a Fazenda Fortaleza, de sua propriedade. Ao lado do esposo, enfrentou o ataque com sangue-frio e precisão. O confronto terminou sem baixas, mas deixou claro, para aliados e adversários, que aquela mulher não recuaria diante da ameaça.
Mesmo em condições desfavoráveis, com a família sob constante risco, o medo não se instalou em seu coração. Pelo contrário: Cinobilina mantinha acesa a chama da vitória que, acreditava, estava prestes a acontecer. Essa convicção silenciosa sustentou muitos dias difíceis e deu forças àqueles que com ela conviviam.
Com a deposição do Intendente e a chegada do novo governo estadual, em 1920, os ânimos finalmente se acalmaram. A Vila de Caracol entrou em um período de relativa paz. Foi então que Cinobilina descobriu em si uma missão ainda mais profunda e transformadora.
Sem jamais ter sido mãe biológica, tornou-se mãe de todos.
Por mais de vinte anos, foi a única parteira de Caracol. De porta em porta, de madrugada ou sob sol escaldante, Mãe Sinô — como passou a ser chamada — trouxe ao mundo cerca de mil crianças. Praticamente todo caracolense nascido nas décadas de 1930 e 1940 carregava, direta ou indiretamente, as marcas de suas mãos firmes e compassivas.
Nunca cobrou um centavo por seus serviços. Talvez sublimasse a ausência da maternidade própria; talvez apenas obedecesse ao chamado silencioso da solidariedade. O certo é que adotou três crianças, criou-as como filhos, e nelas encontrou alegria, honra e amparo na velhice.
Com o passar dos anos, converteu-se ao evangelismo, fundando a primeira igreja pentecostal de Caracol, ampliando ainda mais sua atuação social e espiritual. Da mulher armada que guardava a fazenda, à parteira que guardava vidas, sua trajetória desenha um arco raro de bravura, fé e serviço.
Hoje, merecidamente, uma Unidade Básica de Saúde em Caracol leva o seu nome, perpetuando a memória de Cinobilina Gonçalves — mulher guerreira, cristã convicta e mãe de muitos filhos.
Ao lembrar sua história, é impossível ignorar um fato essencial: na Guerrinha de Caracol, as mulheres também lutaram. Algumas empunharam armas; outras sustentaram lares, cuidaram dos feridos, garantiram a continuidade da vida em meio ao caos. Cinobilina foi todas elas em uma só.
E enquanto houver memória no sertão, Mãe Sinô continuará viva, não apenas como personagem da história, mas como símbolo da resistência feminina no Brasil profundo.
Comentários
Postar um comentário