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O sangue na feira de Caracol

Atanagildo era filho de Gustavo Dias Soares e Briolanja Boson. Herdara do pai a coragem e da mãe uma firmeza que poucos conseguiam dobrar. Alto, espadaúdo e de força incomum, impunha respeito por onde passava. Sua presença bastava para silenciar conversas e conter desaforos. Era um homem admirado por muitos, temido por outros tantos, pois nunca deixava sem resposta qualquer ofensa que lhe fosse dirigida. No sertão, onde a palavra valia tanto quanto a honra, Atanagildo aprendera desde cedo que fraqueza era convite para a desgraça. Naqueles tempos, a pequena vila de Caracol fervilhava nos dias de feira. Era quando homens e mulheres abandonavam os barracões espalhados pelos sertões da maniçoba para adquirir mantimentos, trocar mercadorias, beber, jogar, fazer negócios e colocar as notícias em dia. A praça enchia-se de tropeiros, mascates, retirantes, crianças correndo entre as barracas e trabalhadores marcados pelo sol inclemente. Misturavam-se o cheiro da farinha, do couro, da rapadura, ...

O FIM

As severas acusações que a imprensa vinha dirigindo ao governo do Estado colocaram-no em situação delicada, deixando-o sem condições morais e políticas para oferecer resistência ao afastamento de Ângelo da Jia e de seus seguidores do comando do município, cuja administração havia mergulhado Caracol em um longo período de instabilidade e conflitos. Esse cenário contribuiu decisivamente para o enfraquecimento da autoridade do homem de Tacaratu, bem como a derrocada do preço da borracha de maniçoba que perdeu importancia no mercado internacional ,provocando uma imensa crise nos barracões, com desistência do trabalho e muitos seringueiros abandonando suas atividades e retornando  aos seus município de origem.Com tudo isso Angelo passou a perder, de forma visível, o controle sobre os acontecimentos. Percebendo essa fragilidade, os aurelianistas intensificaram suas ações e redobraram as hostilidades, determinados a abreviar a saída definitiva do adversário. A situação de Ângelo tornou-se...

João Olímpio

João Olímpio era, em muitos aspectos, o oposto de Adriano. Falava alto, ria com facilidade e carregava a fama de homem destemido. Entrara para o grupo liderado por Aureliano Dias ainda muito jovem, atraído menos pelas disputas políticas e mais pelo sentimento de lealdade pessoal. Via em Aureliano um chefe legítimo, um homem que exercia liderança não apenas pela força das armas, mas pelo respeito conquistado junto ao povo e aos seus companheiros. Desde cedo, João Olímpio demonstrou coragem incomum. Para ele, a valentia precisava ser provada nos momentos difíceis. Participou de inúmeras ações durante a Guerra de Caracol, entre 1916 e o final de 1917, estando presente em alguns dos confrontos mais perigosos travados contra os adversários da família Dias. Ferido em emboscadas por mais de uma vez, recusou-se a abandonar o sertão mesmo quando a perseguição se tornou implacável. Costumava dizer que deixar a terra natal seria aceitar a derrota, e acreditava que o sertanejo só encontrava honra ...

QUANDO A PAZ VIROU AMEAÇA.

Quando Seumam começou a falar dos anos de 1916 a 1918, sua voz mudava. Já não era o tom leve de quem conta vantagem ou exagera causos para animar a roda. Ficava mais baixa, mais pesada — como se cada palavra trouxesse junto um pedaço de lembrança difícil. — Aquilo não foi tempo de gente viver, não... foi tempo de resistir — dizia ele, olhando longe, como se ainda visse o que passou. A vila de Caracol, até então esquecida nos confins do sertão, vivia de um equilíbrio frágil. Gado, roça, pequenos comércios e uma convivência feita mais de necessidade do que de harmonia. Mas bastou pouca coisa para esse equilíbrio se romper. E rompeu. Tudo começou com desconfianças. Ninguém sabia dizer ao certo onde nasceu o primeiro desentendimento. Uns culpavam disputas de terra, outros falavam em vinganças antigas, herdadas de pais para filhos. Havia ainda quem jurasse que o problema veio de fora — gente estranha, circulando pela região, mexendo com negócios de borracha, prometendo riqueza fácil e deixa...

O HOMEM DAS ENCRUZILHADAS.

Horathsmam, das bandas da Lagoa do Mato, não era homem comum. Conhecia como poucos os carreiros da vida, as encruzilhadas do destino e os atalhos que só se revelam a quem não tem medo de se perder. Tinha nos olhos a poeira das estradas e no corpo as marcas de um tempo duro, desses que não pedem licença para ensinar. Era homem do sertão — e do mundo. Depois dos barulhos e das guerras que agitaram o começo do século XX, sumiu sem deixar rastro, como tantos outros que o tempo engole sem dar notícia. Diziam que tinha ido longe. Uns juravam que o viram no Pará, metido com gente de seringa e mata fechada. Outros garantiam que rodou Goiás inteiro, passando fome e aprendendo a sobreviver com o que o dia lhe dava. Havia ainda quem afirmasse que esteve no garimpo de Gilbués, onde a terra promete riqueza, mas quase sempre entrega cansaço e desilusão. Horatsmam, também  conhecido por Seumam nunca confirmou nem negou. Apenas sorria de canto, como quem sabe mais do que diz. Vivia como podia — se...

O CERCO

Caracol vivia dias de tensão permanente. As ameaças e perseguições contra os familiares de Aureliano Augusto Dias tornavam-se cada vez mais violentas pelas mãos dos jagunços do Intendente da Vila, Ângelo da Jia. Prisões arbitrárias, agressões físicas, chantagens e intimidações constantes espalhavam o medo entre os moradores. Diante da indiferença do governo estadual, então sob Eurípedes de Aguiar, Aureliano sentiu que não lhe restava outro caminho. Homem acostumado às durezas do sertão e às leis brutais do coronelismo, decidiu responder à violência com a mesma moeda.Para isso organizou cinco  grupos de guerrilhas chefiados por familiares,ou pessoas de sua inteira confiança: O primeiro grupo,chefiados por por Leovegildo Augusto Dias,seu irmão;O segundo comandado por Agenor Bóson Dias, Sobrinho dos dois;O terceiro e quarto grupo capitaneado pelos irmãos Afro, Jerônimo,e Felipe,amigos da família,e de origem  baiana; O quinto,e demais  grupos tiveram como cabeça os filhos de ...