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O sangue na feira de Caracol

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O FIM

As severas acusações que a imprensa vinha dirigindo ao governo do Estado colocaram-no em situação delicada, deixando-o sem condições morais e políticas para oferecer resistência ao afastamento de Ângelo da Jia e de seus seguidores do comando do município, cuja administração havia mergulhado Caracol em um longo período de instabilidade e conflitos. Esse cenário contribuiu decisivamente para o enfraquecimento da autoridade do homem de Tacaratu, bem como a derrocada do preço da borracha de maniçoba que perdeu importancia no mercado internacional ,provocando uma imensa crise nos barracões, com desistência do trabalho e muitos seringueiros abandonando suas atividades e retornando  aos seus município de origem.Com tudo isso Angelo passou a perder, de forma visível, o controle sobre os acontecimentos. Percebendo essa fragilidade, os aurelianistas intensificaram suas ações e redobraram as hostilidades, determinados a abreviar a saída definitiva do adversário. A situação de Ângelo tornou-se...

João Olímpio

João Olímpio era, em muitos aspectos, o oposto de Adriano. Falava alto, ria com facilidade e carregava a fama de homem destemido. Entrara para o grupo liderado por Aureliano Dias ainda muito jovem, atraído menos pelas disputas políticas e mais pelo sentimento de lealdade pessoal. Via em Aureliano um chefe legítimo, um homem que exercia liderança não apenas pela força das armas, mas pelo respeito conquistado junto ao povo e aos seus companheiros. Desde cedo, João Olímpio demonstrou coragem incomum. Para ele, a valentia precisava ser provada nos momentos difíceis. Participou de inúmeras ações durante a Guerra de Caracol, entre 1916 e o final de 1917, estando presente em alguns dos confrontos mais perigosos travados contra os adversários da família Dias. Ferido em emboscadas por mais de uma vez, recusou-se a abandonar o sertão mesmo quando a perseguição se tornou implacável. Costumava dizer que deixar a terra natal seria aceitar a derrota, e acreditava que o sertanejo só encontrava honra ...

QUANDO A PAZ VIROU AMEAÇA.

Quando Seumam começou a falar dos anos de 1916 a 1918, sua voz mudava. Já não era o tom leve de quem conta vantagem ou exagera causos para animar a roda. Ficava mais baixa, mais pesada — como se cada palavra trouxesse junto um pedaço de lembrança difícil. — Aquilo não foi tempo de gente viver, não... foi tempo de resistir — dizia ele, olhando longe, como se ainda visse o que passou. A vila de Caracol, até então esquecida nos confins do sertão, vivia de um equilíbrio frágil. Gado, roça, pequenos comércios e uma convivência feita mais de necessidade do que de harmonia. Mas bastou pouca coisa para esse equilíbrio se romper. E rompeu. Tudo começou com desconfianças. Ninguém sabia dizer ao certo onde nasceu o primeiro desentendimento. Uns culpavam disputas de terra, outros falavam em vinganças antigas, herdadas de pais para filhos. Havia ainda quem jurasse que o problema veio de fora — gente estranha, circulando pela região, mexendo com negócios de borracha, prometendo riqueza fácil e deixa...

O HOMEM DAS ENCRUZILHADAS.

Horathsmam, das bandas da Lagoa do Mato, não era homem comum. Conhecia como poucos os carreiros da vida, as encruzilhadas do destino e os atalhos que só se revelam a quem não tem medo de se perder. Tinha nos olhos a poeira das estradas e no corpo as marcas de um tempo duro, desses que não pedem licença para ensinar. Era homem do sertão — e do mundo. Depois dos barulhos e das guerras que agitaram o começo do século XX, sumiu sem deixar rastro, como tantos outros que o tempo engole sem dar notícia. Diziam que tinha ido longe. Uns juravam que o viram no Pará, metido com gente de seringa e mata fechada. Outros garantiam que rodou Goiás inteiro, passando fome e aprendendo a sobreviver com o que o dia lhe dava. Havia ainda quem afirmasse que esteve no garimpo de Gilbués, onde a terra promete riqueza, mas quase sempre entrega cansaço e desilusão. Horatsmam, também  conhecido por Seumam nunca confirmou nem negou. Apenas sorria de canto, como quem sabe mais do que diz. Vivia como podia — se...

O CERCO

Caracol vivia dias de tensão permanente. As ameaças e perseguições contra os familiares de Aureliano Augusto Dias tornavam-se cada vez mais violentas pelas mãos dos jagunços do Intendente da Vila, Ângelo da Jia. Prisões arbitrárias, agressões físicas, chantagens e intimidações constantes espalhavam o medo entre os moradores. Diante da indiferença do governo estadual, então sob Eurípedes de Aguiar, Aureliano sentiu que não lhe restava outro caminho. Homem acostumado às durezas do sertão e às leis brutais do coronelismo, decidiu responder à violência com a mesma moeda.Para isso organizou cinco  grupos de guerrilhas chefiados por familiares,ou pessoas de sua inteira confiança: O primeiro grupo,chefiados por por Leovegildo Augusto Dias,seu irmão;O segundo comandado por Agenor Bóson Dias, Sobrinho dos dois;O terceiro e quarto grupo capitaneado pelos irmãos Afro, Jerônimo,e Felipe,amigos da família,e de origem  baiana; O quinto,e demais  grupos tiveram como cabeça os filhos de ...

Apresentação

A publicação de “Sangue e Borracha no Sertão de Caracol” nasce do desejo de oferecer aos meus conterrâneos um olhar sobre um dos períodos mais intensos e conturbados da história de nossa terra. Nas primeiras décadas do século XX, quando o ciclo da maniçoba atingia seu auge, o sertão de Caracol viveu dias em que riqueza e violência caminharam lado a lado. A pequena Vila de Caracol era então um agrupamento modesto de casas simples, apertadas umas contra as outras, lembrando, como diziam os antigos, “bostinhas de cabra” espalhadas pelo chão seco do sertão. Mas, nos fins de semana, aquela vila pacata se transformava. Era quando os barraqueiros desciam dos barracões e seringais para comprar mantimentos e suprimentos. Com eles vinham também o barulho, a agitação e, muitas vezes, o descontrole. Depois das bebedeiras, não eram raras as arruaças que tomavam conta das ruas estreitas da vila. Tiros rasgavam o silêncio da noite, em brigas repentinas, e o medo se espalhava entre os moradores. Casas...