Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2022

Amnésia

Ainda busco a palavra perdida no mangue dos meus pensamentos:   temporal de ideias onde são presas as expressões não ditas...   incrustações gordurosas interditam os ditos de outrora!   Quem sabe, amanhã,   um limpador de trilhos nervosos   encontre novos caminhos   para ativar a lépida memória!

DESEJO

Há muito tento   a mina...   do ouro   das Minas Gerais! Quem mais se anima   nas rimas banais   dos trópicos fatais? Dos homens sem fé,   dos povos famintos,   dos seres extintos,   ou zumbis marginais? Da arte cinzenta,   da política abjeta   que se apresenta   como farsa ou currais?

Ressaca

Alguém acena para o povo e o povo delira, Vitória, vitória, afinal! Depois... tudo volta ao normal: o duro nas docas, nas feiras, nos campos, nas fábricas, cessado o anestésico geral. Sem o canto dos mitos, louvores dos aflitos, renasce a vida real... de quem dirige a orquestra e organiza essa festa na alcova do poder central! E que o povo não esqueça, por mais que santo pareça, os prazeres dessa esbórnia: migalhas do céu! Levanta-te, ó povo, da opressão! Que teu canto seja  contestação, Contra as mãos que te iludem, Nas sombras do poder! Não corra0s atrás do vento, Não exultes na ilusão. Luta pelo teu direito, Pelo suor e pelo pão!

Reflexão

— O que levas nessas águas turvas? — diz o homem na curva do rio, que segue, indolente, com sentimento de culpa. — Escondes o lixo humano que trazes de outras plagas, tingindo de escombros tuas águas, tecidas de mágoas, de onde jazem, sem esperança, tuas nascentes! E não muito além, só encontrarás jazigo... E todos a montante, a jusante, em breve, morreremos contigo.

Mea Culpa

MEA CULPA Eu te amo, Embora meu polimorfismo brutal Te deseje com intensidade. Sinto que nem percebes, Pois tua estoica resiliência Bloqueia teu entendimento de mim. Assim, esse amor atônito  Vive no âmbito do não ser. As palavras que não digo Ecoam no vazio do silêncio, E o desejo reprimido Transforma-se em dor contida. Cada gesto teu, um enigma, Que minha alma decifra no no silêncio, em segredo, Numa dança solitária e melancólica. Meu coração, uma fortaleza frágil, Resiste à tempestade dos sentimentos. Tua presença, uma chama distante, Que ilumina, mas não aquece. E nesse jogo de sombras e luzes, Nos perdemos no labirinto De um amor que não se concretiza. Mas mesmo assim, eu te amo, Com a força de um furacão contido, Com a delicadeza de um sussurro não ouvido. E aceito, resignado, meu destino, De amar-te na eternidade do não ser, Onde as palavras são prisioneiras do silêncio, Enquanto julgas,o amor, uma promessa não cumprida.

Inflaciomendicância

Um mendigo triste lamenta, Tipo de inflação que antes nem percebera: Taxa de recusa aumentada, Em tempo de pandemia, E a coleta diminuta, Antíteses da mais valia. Agora não sabe como viverá, Doravante na miséria, Navegando no mar Da pobreza absoluta!

Credo

Nada mais coerente, este universo e suas leis, com seus corpos celestes, rodopiando no além... Seria inútil, tudo isso, um desperdício sem sentido, se não houvesse uma trajetória decrescente: Deus... cosmo... homem

Assistência

Eu me cuido, tu te curas, ele adoece... nós pagamos, e assistimos eles morrerem na fila do SUS. Entre prazos e promessas, esperanças se desvanecem. Onde a saúde é direito, tornou-se um privilégio. Eu me protejo, tu te salvas, ele sofre... nós clamamos, e assistimos eles sucumbirem nos corredores lotados, esperando uma chance. Entre diagnósticos tardios e tratamentos negados, vidas são cifras, números frios, num sistema que falha. Eu me vigio, tu te tratas, ele desiste... nós lutamos, e assistimos eles se perderem nas estatísticas de um caos que clama por mudança.

Tempestade.

Tempestade  Quem viu, sentiu o rio partir-se em dois, formando uma ilha, e o aluvião das águas submergí-la: Casas, móveis, troncos, tecidos, carros boiando,  procurando seus donos desaparecidos! Pessoas observavam impotentes, os pertences de uma vida inteira levados pela correnteza furiosa, Enquanto o rio, em sua fúria, não mostrava piedade. O retorno das águas trouxe consigo histórias de perda e desespero, fragmentos de vidas despedaçadas, e em cada esquina, a marca indelével da tragédia que uniu todas as margens. Quem ficou viu a ressaca do rio, trazendo de volta as dores de outras terras, E nossas casas invadidas, repletas de lama, lágrimas e lixo.

Proposta

          Quem vai me dizer sim, quem vai me dizer não, quem vai me dar a terra pra que dela eu tire o pão? Quem vai me dar escola, quem vai me ensinar a ler, e lendo, ganhar a força pra gente não morrer? Só deve me responder quem estiver em mutirão: que a vida é labuta, e não se pode esconder... Toda conquista resulta de luta, suor e prazer!

In natura

Amar a vida... e as pessoas... sem regramentos, despido;   amar sem preconceito,   sem padrão preconcebido...   Amar só vale a pena   quando é intenso e sem rédeas,   criando um mundo novo   de ampla liberdade.   Sobretudo, e sobre todos,   o que a natureza sempre quis:   quebrar as amarras   que impedem o surgimento   de um ser humano feliz!

Casar ou morrer...era a questão.

Na década de quarenta e cinco, enquanto a Europa tentava se reerguer após a guerra, no sertão de Caracol, a vida seguia seu curso marcado pela violência, preconceito e moralismo arraigado. Foi nesse contexto que o jovem Alventino, protegido de seu Januca, se viu envolvido em um escândalo: acusado de seduzir duas donzelas da cidade, Mariinha e Hildene, ambos membros respeitados da sociedade local. A "lei" ainda residia em São Raimundo Nonato, para onde os envolvidos foram levados para enfrentar as consequências do desonramento das moças. Sob a determinação da lei, Alventino foi obrigado a se casar com Hildene, a mais jovem das duas. Seu Januca, visando preservar a reputação da família de seu amigo Manoel Bento, buscou uma solução honrosa para Mariinha, arranjando-lhe um casamento com Vicente Domingão, mediante um dote de cinquenta cruzeiros do próprio bolso. Apesar das aparências de justiça e harmonia restaurada, o casamento de conveniência entre Vicente e Mariinha logo revelo...