Atanagildo era filho de Gustavo Dias Soares e Briolanja Boson. Herdara do pai a coragem e da mãe uma firmeza que poucos conseguiam dobrar. Alto, espadaúdo e de força incomum, impunha respeito por onde passava. Sua presença bastava para silenciar conversas e conter desaforos. Era um homem admirado por muitos, temido por outros tantos, pois nunca deixava sem resposta qualquer ofensa que lhe fosse dirigida. No sertão, onde a palavra valia tanto quanto a honra, Atanagildo aprendera desde cedo que fraqueza era convite para a desgraça.
Naqueles tempos, a pequena vila de Caracol fervilhava nos dias de feira. Era quando homens e mulheres abandonavam os barracões espalhados pelos sertões da maniçoba para adquirir mantimentos, trocar mercadorias, beber, jogar, fazer negócios e colocar as notícias em dia. A praça enchia-se de tropeiros, mascates, retirantes, crianças correndo entre as barracas e trabalhadores marcados pelo sol inclemente. Misturavam-se o cheiro da farinha, do couro, da rapadura, da cachaça e da borracha recém-extraída.
Mas, naquele dia, havia algo diferente no ar. Um silêncio inquieto parecia caminhar entre os grupos de homens, como se todos pressentissem que alguma tragédia estava prestes a acontecer.
A tensão entre Atanagildo e Vicente já não era segredo para ninguém.
A discussão começou por causa da demora na entrega da borracha da maniçoba. Semanas haviam se passado sem que o produto fosse entregue conforme o combinado. Atanagildo, proprietário do barracão, cobrava o compromisso firmado. Vicente, trabalhador vindo dos rincões mais pobres da Bahia, alegava dificuldades e adiamentos.
Entretanto, todos sabiam que aquela era apenas a superfície do conflito.
O verdadeiro motivo queimava havia meses.
Corriam comentários de que Atanagildo mantinha ,no imaginário de Vicente, um relacionamento escondido entre o patrão e sua mulher . O jagunço baiano sempre desconfiava de traição. Cada olhar atravessado, cada ausência inexplicável da esposa e cada cochicho na vila alimentavam um ciúme que lhe consumia a alma. O orgulho ferido transformava-se, pouco a pouco, em desejo de vingança.
Vicente era homem duro, acostumado à aspereza da vida. Tinha chegado do sertão da Bahia acompanhado de muitos outros migrantes, fugindo da miséria e em busca do garimpo da maniçoba . Carregava apenas a coragem, um punhal na cintura e a esperança de construir destino melhor. Mas a pobreza, a bebida e a humilhação corroíam qualquer esperança.
Naquele dia de feira, algumas doses generosas de pinga terminaram por apagar o pouco de prudência que ainda lhe restava.
Quando Atanagildo voltou a cobrar a entrega da borracha, Vicente perdeu o controle.
Primeiro vieram as palavras.
Insultos pesados ecoaram entre os presentes. Homens interromperam as conversas. Mulheres recolheram as crianças. Todos sabiam que discussões daquele tipo raramente terminavam apenas em ofensas.
Atanagildo respondeu à altura. Sua voz firme cortava o burburinho da feira.
Ninguém arredava o pé.
Num movimento rápido, quase impossível de ser evitado, Vicente sacou da pexeira e avançou sobre o barraqueiro.
A lâmina encontrou o ventre de Atanagildo.
O golpe foi profundo.
O grande homem cambaleou antes de cair sobre a terra poeirenta da praça. Um grito coletivo rompeu o silêncio. Alguns correram para apartar a briga, outros recuaram, temendo ser atingidos.
Ferido mortalmente, Atanagildo surpreendeu a todos.
Em vez de implorar por socorro, ergueu a cabeça ensanguentada e, dominado pela indignação, lançou um desafio que atravessou a feira como um trovão:
— Seu covarde! Venha acabar de me matar! Homem não deixa serviço pela metade! Venha, bandido!
As palavras incendiaram ainda mais o ódio de Vicente.
Tomado pela fúria, voltou para concluir o assassinato.
Foi seu último erro.
Quando se aproximou do corpo do adversário, acreditando-o vencido, Atanagildo reuniu as últimas forças que lhe restavam. Num gesto desesperado e preciso, arrancou o próprio punhal e desferiu um golpe devastador contra o peito de Vicente.
A lâmina atravessou-lhe o tórax.
O jagunço estacou.
Os olhos arregalaram-se de espanto. Tentou respirar, mas o sangue já lhe inundava os pulmões. Cambaleou alguns passos antes de tombar pesadamente sobre o chão da feira.
Morreu ali mesmo.
Morreu antes daquele homem que imaginava derrotado.
Atanagildo ainda permaneceu vivo por alguns instantes. O sangue escorria lentamente sobre a terra seca de Caracol, misturando-se à poeira pisada por compradores e vendedores. Ao seu redor formou-se uma roda silenciosa. Já não havia gritos, nem insultos.
Apenas o peso da morte.
Pouco depois, também Atanagildo entregou o último suspiro.
Naquele entardecer, a feira perdeu o colorido das mercadorias. Restaram apenas dois corpos estendidos na praça e uma história que atravessaria gerações. Os velhos sertanejos diriam, durante décadas, que naquele dia a borracha da maniçoba foi paga com sangue.
Porque no sertão de Caracol, onde a honra muitas vezes valia mais que a própria vida, bastava uma paixão proibida, uma dívida mal resolvida e um punhal afiado para transformar um dia comum de feira em uma tragédia que jamais seria esquecida.
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