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Médico itinerante



Cheguei nesta noite a Teresina, vindo de Terra Nova, para trabalhar em uma empresa local. Fui encaminhado para que o senhor me avaliasse e emitisse o ASO (Atestado de Saúde Ocupacional). Tudo bem... Com você, já são cinco pessoas oriundas dessa cidade que atendi hoje. Para minha surpresa, nenhum reconheceu em mim um conterrâneo, também oriundo daquela terra, fundada por meu avô.

Faz muito tempo que saí de lá. Provavelmente, esses jovens que atendi eram crianças, ou sequer tinham nascido, quando trabalhei na terra dos meus antepassados nos anos setenta. Fui o primeiro médico residente naqueles rincões. O trabalho era árduo, extenuante, e as condições técnicas eram precárias: uma casa de saúde improvisada, onde faltava água, não havia energia elétrica, e nem os equipamentos básicos para intervenções médicas. Mesmo assim, mantive a população saudável, atendendo regularmente e raramente precisando encaminhar pacientes para cidades maiores. Fiz meu papel como profissional da saúde comunitária, e por isso, julgava-me merecedor, quatro décadas depois, de algum reconhecimento ou lembrança, ainda que vaga, por parte de alguns cidadãos. Certamente, seus pais nunca falaram de mim, mas sabem quem fui e quem sou, ou será que também fui esquecido?

Essa situação me faz refletir sobre a natureza transitória da nossa profissão. Como médico itinerante, passei por muitas cidades, deixando minha marca, mas sem fixar raízes permanentes em nenhuma delas. A vida de um profissional que não se fixa em uma comunidade é um constante recomeçar. Estamos sempre de passagem, oferecendo nossos serviços, mas raramente construindo vínculos duradouros com as populações que atendemos.

Essa falta de fixação traz consigo uma perda significativa: a ausência de uma vivência contínua e profunda com as comunidades. Em cada lugar que trabalho, dou o meu melhor, mas logo parto para um novo destino, e as relações que construo são efêmeras. A conexão verdadeira com as pessoas, o entendimento profundo de suas necessidades e a oportunidade de ver o impacto duradouro do nosso trabalho ficam comprometidos. Tornamo-nos figuras passageiras na memória coletiva, facilmente esquecidas no ritmo acelerado do mundo moderno.

Hoje, com a internet e as redes sociais, nossa vida se resume a uma superficialidade avassaladora, que abstrai a capacidade de reflexão e análise pregressa de nossas ações. A lógica simplória dos acontecimentos virtuais momentâneos prevalece, e nada conta além do agora. A história, o passado e as contribuições de quem veio antes são rapidamente esquecidos, eclipsados pela pressa do presente.

Ao atender esses jovens de Terra Nova, percebo que, apesar dos esforços e sacrifícios feitos no passado, o reconhecimento pode ser fugaz. No entanto, continuo a acreditar na importância do nosso trabalho, mesmo que muitas vezes não sejamos lembrados. Cada pessoa atendida, cada vida tocada, é uma pequena parte de um legado maior, ainda que invisível aos olhos daqueles que só conhecem o presente.







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