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O Assombrado




Voltei do médico aliviado: meus exames estavam todos normais, evidenciando um bom controle da minha saúde física. Esse aparente bem-estar, no entanto, não revelava minhas idiossincrasias, medos, angústias e subjetividades. Nunca exagerei na alimentação, talvez para compensar minha inatividade física. Tenho um comprometimento genético que me predispõe ao acúmulo de gorduras nos vasos, alimentando minha hipocondria – um medo que carrego desde a infância. 

Cresci no Caracol, um vilarejo com no máximo 200 casas, onde meu pai era um próspero comerciante. Ele vendia de tudo: desde medicamentos naturais como pílulas do Dr. Ross, Robusterina, Capivarol, até mercadorias triviais como açúcar, café em grãos, sal grosso, arroz e enfeites para caixão de defuntos. Meu pai era o único na cidade a vender esses enfeites, ornamentos em papel alumínio para assegurar um ar respeitoso ao falecido. Estavam sempre nas prateleiras inferiores, para as quais eu não tinha coragem de olhar. Quando o fazia, era de soslaio, rapidamente, pois estavam associados a almas de outro mundo.

Era uma tortura, especialmente quando acordavam meu pai altas horas da noite para comprar esses enfeites. Ele saía, e eu ficava sozinho em casa, aguardando seu retorno. Pior ainda era ouvir as batidas de prego do seu Marcelino, o carpinteiro que fazia caixões, que por azar morava defronte à nossa casa. Esses medos infantis, embora compreensíveis na época, persistem até hoje.

Ninguém se comparava, no entanto, ao seu Vanderlim, responsável pelo sucesso da mercearia de seu pai e por levar e trazer trabalhadores para Brasília nos anos sessenta. Seu filho, Vandú, era um grande medroso de assombração na cidade. Quando ouvia falar da morte de um conhecido, já saía de fininho. Não queria ouvir nem saber. Até a namorada ressentia sua ausência nesses dias, pois a luz da cidade só funcionava até às 21 horas, deixando-o com sério risco de voltar no escuro para casa: algo inimaginável para ele.

Homem já casado, toda a cidade sabia do seu pavor por defuntos. Nunca assistiu a um velório, nem de seus familiares, e não acompanhava enterros. Nem no Dia de Finados visitava seus entes queridos. Seu medo era tanto que não dormia sozinho com sua esposa quando falecia alguém de seu conhecimento. Levava sempre algum familiar para lhe dar mais segurança e coragem. Era presa fácil para brincadeiras e sustos provocados pelos amigos em noites de lua cheia.

Dizem que morreu velho, com medo de si mesmo. E logo que morreu, não suportou ficar no limbo. Seu espírito apossou-se de um novo corpo no mundo dos vivos.






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