Por muitas décadas, o açude não sangrou. Era lindo vê-lo cheio, aquele mar d'água com seus paturis, mergulhões e teténs barulhentos que atraíam caçadores de várias cidades. As águas se estendiam da parede do sangradouro até próximo à casa da Dona Ernestina, chegando ao sítio Pirajá, formando um verdadeiro diadema líquido que envolvia e abraçava nossa cidade.
O açude tinha um grande volume de água e muita serventia. Lembro-me dos meninos mais afoitos tentando atravessá-lo, partindo do "banheiro das mulheres," no lado próximo ao sítio do Sr. Mário Lordes, até chegar ao "banheiro dos homens," na outra margem do açude, próxima à casa do Sr. Manoel Bento. Para ir ao bairro Maranhão, ou simplesmente ao "Outro Lado," como também era conhecido, só de canoas, tendo como ponto de desembarque os coqueiros da Dona Borrega, e no outro extremo, um ponto entre as mangueiras da "Tia Vivi."
A "Tapagem" era uma via alternativa para esses deslocamentos nos meses pós-inverno, quando as águas tinham baixado muito, mas só se atravessava por ali "com águas nos joelhos," o que não era agradável para muitos.
Às suas margens havia muitas quintas, com abundantes e variadas fruteiras: a Quinta do Sr. Mário Lordes, da Dona Borrega, da Tia Vivi, da Dona Mariquinha, da Dona Odilia e do Sr. Antônio Newton. Mais a montante, o sítio Pirajá com suas goiabeiras.
Infelizmente, é triste constatar sua transformação nestes últimos trinta anos. Em pleno processo de assoreamento, parte de um fenômeno global de devastação ambiental, os efeitos não pouparam minha pequena Caracol. A maior barragem há muitos anos não mais acumula água em volume considerável, transformando seu leito – incluindo o açude e a lagoa – num vasto lençol seco, entrecortado por múltiplas fissuras no solo ressequido. Nem lembra um passado não muito distante de muito sossego, bons invernos e fartura, quando a cidade não sofria com baixa umidade e desabastecimento de água como agora, tormentos constantes para nossa população.
A paisagem que antes trazia vida e alegria agora se tornou um retrato melancólico do que a negligência ambiental pode causar. As fruteiras abundantes deram lugar ao solo árido, e as histórias de atravessar o açude são apenas memórias de um tempo em que a natureza e a cidade viviam em harmonia.
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