Hoje fiquei sabendo do falecimento do Pedro Bento, o último dos filhos do velho Júlio Bento Antunes. Neste momento, lembro-me de Júlio Bento, morador e comerciante de Caracol. Ele era uma pessoa alegre, uma figura afável, de riso franco (era gostoso ver e ouvir suas risadas, só igualáveis às do seu irmão Benício). Como ninguém, ele sabia muitas histórias e as contava nas noites em que muitos se reuniam na calçada de sua casa, extensão da sua quitanda, para falar de política, polícia e dos barulhos da década de vinte.
Foi ali que eu, ainda menino, sempre acompanhando meu pai, "seu Januca", ao lado de outras pessoas da cidade, ouvi falar do "Seu Leobas", político do Remanso, e do Coronel Franklin, do Pilão Arcado, personagens de muitas lutas, vinganças de morte e violências no sertão norte da Bahia, fronteiriço ao nosso sul do estado do Piauí. Seu Júlio Bento era um exímio contador de causos, porque vivenciara alguns deles, mas também personagem de muitas lorotas que se diziam a seu respeito.
Certa feita, no nosso Caracol dos anos sessenta, ainda sem iluminação, no tempo do rádio e da geladeira a gás, mas já uma cidade de comércio que recebia muitas visitas dos chamados caixeiros viajantes de Juazeiro, Salvador, Feira de Santana e outras localidades, um caixeiro, já cansado do trabalho, chegou ao armazém do seu Júlio e disse: "Seu Bento", como também era conhecido, "veja para mim um refrigerante". Sem saber o que era refrigerante e sem pestanejar, mestre Júlio retrucou: "Meu patrão, de comida, aqui só temos bolacha Pilar...", causando risos nos frequentadores do armazém.
Era um senhor, como disse, simpático, sereno, bondoso, analfabeto, embora detentor de um coração generoso, e que, ao lado de sua amada esposa Ana, ou Don'ana, assim também conhecida, muito fizeram pela comunidade caracolense: ela através de sua participação na vida religiosa, inclusive fazendo com que um dos seus filhos se tornasse sacerdote da Igreja Católica; e ele, como comerciante e membro do PSD (Partido Social Democrático, na época o partido dos currais brasileiros), ajudou, como pôde naquelas circunstâncias, o município a adquirir os benefícios que mais tarde a cidade pôde usufruir.
Júlio Bento era um dos filhos do "seu Manoel Bento", oriundo da Bahia, que aportara na cidade no início de sua formação. No fim da vida, já com seus 90 anos, Manoel Bento vivia mais na casa do filho comerciante. Antes, era morador às margens norte do grande açude, quando minha terra tinha aquele mar de água, entre a cidade e o bairro "Maranhão". O local onde morava ficou por muitos anos conhecido como banheiro dos homens, porque já havia na margem oposta do açude um banheiro das mulheres.
Numa tarde dessas de chuva, o velho Manoel Bento estava sentado no balcão da bodega do filho Júlio, curtindo uma soneca das três horas, quando se assustou com um intenso raio que caiu nas proximidades, atingindo inclusive o armazém onde se encontrava, causando-lhe a morte imediata. Assim faleceu Manoel Bento, patriarca dos Bento Antunes de Caracol.
E assim, a vida, hoje e sempre, só pede uma desculpa para encerrar nossa jornada.
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