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O SANTO E O ANIVERSARIANTE...







Lendo o Santo do Dia da Liturgia Diária, dei-me conta de que hoje a Igreja Católica reverencia São Judas Tadeu ou Lebeu, um dos apóstolos mais próximos de Jesus. Recordo-me ainda que nesta data, na minha terra, aniversariava meu amigo de infância Raimundo Tadeu, filho de minha madrinha de batismo, Aline Albuquerque. Tadeu tinha cabelos louros, longos e cacheados, fruto de uma promessa de sua mãe de deixá-los crescer até que completasse catorze anos, o que para nós crianças era uma delícia, pois essa promessa estava associada à comemoração do aniversário do pequeno nazareno, nascido no mesmo dia do santo de quem recebera o nome.

Todos os anos, íamos à festinha do aniversariante saborear as apetitosas petas e os ginetes saborosos de Dona Aline, cujo feitio tão caprichado demonstrava todo o carinho de minha madrinha pelos amigos do seu filho. Tadeu fazia parte do meu grupo de amigos nesses dias de infância, e andávamos sempre juntos para todos os lugares nas cercanias da nossa acanhada Caracol. Éramos, como se dizia, carne e unha.

Não era comum festas de aniversário em nossa terra nos anos cinquenta e sessenta, tanto que só meu amigo tinha essa celebração, por razão de cumprimento de promessa. Pena que todos os anos meu presente era o mesmo, só mudava a marca: um ano meu pai mandava do seu comércio um sabonete Palmolive; noutro, um Lifebuoy; e noutro ano, um "Vale quanto pesa," cujo símbolo de legitimidade, ainda me lembro, era uma balança gravada na sua embalagem. De tanto presentear sabonetes, e por certo acanhamento, utilizava-me do fato de ser afilhado da dona da festa e amigo do aniversariante para ser o primeiro a chegar ao evento e não ser visto pelos outros convidados entregando aquele presentinho peba que meu pai, por economia e quase por promessa, me impunha a cumprir.

A casa de Dona Aline era ampla e tinha em seu frontispício gravado o número 1912, lembrando a data em que fora construída e também a emancipação da Vila de Caracol. O ambiente festivo era na sala da frente, que dava para a entrada da casa. Ali, as cadeiras estavam arrumadas, mesas bem postas e organizadas para que todos ficassem bem acomodados. Era comum na cidade as residências terem assentos, naquele tempo, feitos de caixotes de madeira que embalavam doze litros do antigo Conhaque de Alcatrão de São João da Barra. Esse caixote era serrado ao meio, possibilitando a confecção de dois assentos independentes, bastava pôr-lhes os pés e os porta-braços. Mas na casa da Dona Aline, o diferencial era que só ela confeccionava estofados coloridos que revestiam o assento, braços e pernas, encobrindo toda a madeira do móvel e dando maior beleza e conforto aos visitantes.

Raimundo Tadeu cresceu, encrespou o cabelo e sumiu no mundo, alojou-se em Brasília e nunca mais nos vimos. Hoje, são todos falecidos: minha madrinha, meu pai e o aniversariante. E do alto dos meus 75 anos, nesse dia de São Judas Tadeu, aqui me vejo lembrando da minha infância em Caracol, rememorando os dias da minha primeira década de vida e tudo que ela me proporcionou de convivência no nosso mundo rural, com tantos amigos e tanta amizade construída por familiaridade, proximidade e convivência diária, onde nossas residências mais pareciam grandes quartos de uma grande casa chamada cidade.

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