Todos sabemos da importância, hoje, de uma alimentação saudável, e muitas são as possibilidades de orientações acerca das melhores fontes de nutrientes para a manutenção de nossa saúde e qualidade de vida. É fundamental em nossa alimentação um equilíbrio entre fontes de proteínas, gorduras e carboidratos.
O acesso às múltiplas variedades de alimentos e a grande produção deles, mesmo nos estados menos desenvolvidos, praticamente aboliu a desnutrição pluricarencial que era tão prevalente nas décadas de 1950 e 1960, quando a mortalidade infantil ultrapassava 100 óbitos por cada grupo de 1000 nascidos vivos. Além da carência, havia também a desinformação. Muitas pessoas no interior, em comunidades rurais, juntavam dúzias de ovos para vender na feira de sábado e, com os parcos recursos, adquiriam farinha, açúcar e outros produtos de menor valor nutricional do que os ovos que vendiam.
Naquela época, eu mesmo, com meus dez anos, filho de uma família de comerciantes na zona urbana da cidade, não tínhamos acesso às diversas fontes de nutrientes hoje tão comuns. Na minha pequena Caracol, era raridade encontrar cenoura, beterraba, alface ou qualquer outra verdura!
Com o agronegócio nas últimas décadas inundando os supermercados com várias modalidades de alimentos, já se busca um refreamento do consumo para contrabalançar a tendência de uma população super obesa. Eu, entretanto, carrego ainda o trauma da época das carências e, vez por outra, me vejo transgredindo certas recomendações consideradas politicamente corretas em relação à nutrição. Todo santo dia como um ovo cozido, mas algumas vezes não resisto a um ovo frito na manteiga de garrafa ou um bom pedaço do velho requeijão Cardoso, ou ainda um especial doce de leite, feitos pelas irmãs Elizete ou Iracema, quando me vêm do Caracol.
Nem sempre tenho saudades do que comíamos por falta de opção, mais do que por falta de recursos financeiros, nos idos da minha infância. Quantas vezes, como criança, achávamos razoáveis certas merendas que nos ofereciam lá em casa: aquelas gemadas feitas com ovo batido com açúcar, no garfo, até ficar numa consistência de papa; outras vezes, mais simples ainda, merendávamos à tarde a chamada jacuba, uma mistura de rapadura raspada com farinha, água e limão. E na primeira hora do dia, bem antes do café da manhã propriamente dito, tomávamos uma "geleia", que nada mais era do que farinha escaldada no café preto bem quente e adoçado com açúcar.
Era uma vidinha simples essa do interior, mas certamente foi essa estratégia coletiva que nos possibilitou superar todas as adversidades do meio, do tempo e do clima, e partilharmos hoje do dom maravilhoso da existência humana.
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