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Caracol no cangaço I

Corria o ano de 1912. Governava o Piauí o Dr. Miguel de Paiva Rosa. Em Caracol, o Capitão Aureliano Augusto Dias, que há tempos lutava pela emancipação do seu povoado, conseguiu, graças à interferência do Coronel João Augusto Rosa, pai do governador, e do conhecido sertanista Manoel Costa, concretizar o sonho de ver sua terra elevada à categoria de município. Desmembrado de São Raimundo Nonato-PI, foi instalado o governo em 8 de dezembro de 1912, recebendo as bênçãos de Nossa Senhora da Conceição.

Foram nomeados para dirigir a nova comuna: como Intendente, o Capitão Aureliano Augusto Dias, líder político local, e como Conselheiros Municipais, o Capitão Reginaldo Augusto Dias, Manoel Luís da Silva, Joaquim Ribeiro Soares, João Sinfrônio Dias e Francisco Dias Pinheiro.

O processo eleitoral, no entanto, para a substituição do governador Miguel Rosa, foi bastante conturbado em todo o estado. O candidato eleito para sucedê-lo não assumiu o poder devido à disputa entre grupos políticos, e a Assembleia Legislativa, destituindo o seu mandato, declarou como vencedor o adversário concorrente: o médico Eurípedes Clementino de Aguiar. Correligionários do ainda governador Miguel Rosa partiram para o enfrentamento e solicitaram apoio de seus aliados no interior do Piauí, com o fim de assegurar a posse do eleito, António José da Costa.

De Caracol, Aureliano Augusto Dias, aliado de Miguel Rosa, enviou 150 homens armados sob o comando de Aristides Augusto Dias para ajudar as forças pró-governo. Porém, ao chegarem em Oeiras, notícias de Teresina já davam como certa a queda do governo e a posse do novo governador, Dr. Eurípedes de Aguiar, para o quadriênio de 1916 a 1920.

Com o novo governo do estado, a família Dias de Caracol, representada pelo Intendente Aureliano Dias e seus aliados, passou a sofrer intensa perseguição, incluindo a destituição da Intendência e de todos os conselheiros municipais (Intendente era o cargo equivalente a Prefeito, e Conselheiros, a vereadores).

Nesse ambiente, do ponto de vista econômico, a cidade já vinha se desenvolvendo há alguns anos, graças ao surto migratório causado pela elevação do preço da borracha de maniçoba. A exploração e o extrativismo atraíram para os sertões piauienses, inclusive Caracol, imigrantes de vários estados do país, principalmente da Bahia, Ceará e Pernambuco, fazendo a população do município triplicar rapidamente.

Numa dessas levas, chegou a Caracol, em 1910, o Sr. Ângelo Gomes de Lima, à frente de 100 homens que diziam vir atraídos pelo sonho de enriquecimento nesse novo eldorado em que se transformou a terra dos maniçobais. Na verdade, tratava-se de um personagem oriundo da região do Rio de Baixo, mais precisamente de Tacaratu, em Pernambuco, trazendo nas costas um rosário de crimes praticados na sua cidade de origem,e que 
oportunisticamente, quando as circunstâncias lhes favoreceram, aliou-se aos políticos de São Raimundo Nonato, simpatizantes de Eurípides de Aguiar.

Logo após a posse do governo do Estado, em julho de 1916, foi nomeado o novo intendente de Caracol: o Sr. Ângelo Gomes de Lima, conhecido pela alcunha de "Ângelo da Jia". Ele foi responsável por graves ocorrências de mortes, incêndios de fazendas, roubos de gado, perturbações da ordem pública e perseguições de toda ordem aos amigos e parentes de Aureliano. Esses acontecimentos motivaram vários discursos no Senado da República pelo senador Abdias Neves, então adversário do governo no Piauí, que inclusive veiculou notícias em jornais do Rio de Janeiro sobre as ocorrências de Caracol.

Essa guerra, que durou praticamente dois anos, resultou em grandes prejuízos financeiros e patrimoniais para os membros da família Dias, devido ao custo de manutenção operacional de vários homens armados. A situação culminou com o exílio temporário de Aureliano no município de Pilão Arcado, na Bahia, onde aproveitou a estadia junto a familiares residentes para conquistar apoios e armas para enfrentar o facínora que, com apoio do governo do Estado, mandava e desmandava com seus asseclas oriundos de Pernambuco, em sua cidade.

De volta a Caracol com o reforço adquirido em Pilão Arcado e com grande empenho de seus aliados, em 1917 conseguiram expulsar da terra natal o Sr. Ângelo da Jia, que teve de fugir, sem terminar o mandato, para o sertão pernambucano. A situação foi corroborada por um episódio pitoresco, se não fosse trágico: Ângelo aguardava a vinda de 100 jagunços de Pernambuco como reforço para a batalha final. Contudo, conseguiu apenas vinte cangaceiros, sob o comando de seu irmão, Joaquim de Lima. Ao chegar a Caracol, Joaquim fez um desabafo singular: "Sou inimigo figadal de meu irmão, mas o temor de que seus inimigos caracolenses o matassem me fez vir até aqui para não dar tão grande prazer aos outros, pois esse prazer terei eu mesmo. Sou eu quem o quer matar!"

Restabelecida a ordem, dada a repercussão do que se convencionou chamar de Guerra de Caracol, ao governo estadual não restou outra opção senão nomear novos ocupantes para os cargos abandonados: novo intendente - Sr. Lino Ribeiro; juiz de paz - Ildefonso Dias Soares; promotor - Francisco José; presidente do Conselho Municipal - Manoel Ribeiro; e coletor - Eliacim Muniz.

Após a Revolução de 1930, forças políticas de São Raimundo Nonato, que nunca aceitaram a autonomia de Caracol, fizeram com que o governo do estado, através de decreto estadual, reconduzisse o município à sua condição primitiva de distrito, reintegrando suas fronteiras ao antigo município do qual se tinha desmembrado.

Enquanto isso, já em Pernambuco, o Sr. Ângelo da Jia reintegrou-se à vida do cangaço, tornando-se um dos maiores colaboradores do capitão Virgulino Lampião. Mais tarde, Ângelo foi um dos mais importantes coiteiros (fazendeiros que davam apoio aos cangaceiros) presos pelo governo do estado pernambucano. Essa foi uma estratégia adotada  para eliminar um dos principais elementos que alimentavam o banditismo no nordeste brasileiro.

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