O povoamento do território piauiense está diretamente ligado à expansão e conquista de terras promovidas pela Casa da Torre, instituição criada e administrada pela família Dias D'Ávila, da Bahia. O principal objetivo desta instituição era financiar aventureiros – apresadores de índios e conquistadores de terras destinadas à pecuária – para que desbravassem os Sertões. Após chegarem às novas terras, os Ávila as requeriam por meio de sesmarias. Quando não conseguiam ocupar todas as terras com o plantel de gado da família, repassavam-nas, geralmente em lotes, para rendeiros que se aventurassem a ocupá-las.
A ocupação do território piauiense resultou da expansão da pecuária, que encontrou ali várias condições favoráveis ao seu desenvolvimento, tais como:
a) Disponibilidade de terras, quase todas servidas por cursos d'água e pastagens naturais permanentes;
b) Chuvas abundantes e melhor distribuídas;
c) Facilidade na instalação das fazendas, com poucos recursos em termos de equipamento e mão de obra.
Assim, o Piauí se apresentava com grande potencial para a pecuária, o que se confirmou ao longo do povoamento, pois essa atividade econômica se tornou o principal suporte da região, em torno da qual girava toda a dinâmica da vida da população. A proliferação de fazendas de gado no Piauí permitiu que a capitania se tornasse, no século XVIII, uma das mais importantes zonas produtoras de gado vacum e cavalar do Brasil. Inicialmente, os rebanhos eram enviados para Pernambuco e Bahia, mas, à medida que as fazendas de gado se disseminaram pelo território piauiense, os rebanhos começaram a ser destinados a outras regiões, conforme a distância e as condições naturais.
Apesar das grandes distâncias percorridas e das perdas de gado nos percursos, a atividade pecuária mostrava-se muito lucrativa para os fazendeiros piauienses, o que justificou a rápida proliferação de fazendas por todo o território. Mesmo com as despesas de meação com os vaqueiro, o dízimo e contabilizados, os prejuízos em decorrência de doenças no gado, poucas atividades superavam os lucros obtidos com a pecuária. No século XVIII, além dos mercados de Pernambuco e Bahia, a pecuária piauiense também abastecia os mercados do Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O volume de gado comercializado era significativo; na segunda década do século XVIII, por exemplo, a cidade de Belém, no Pará, comprava anualmente do Piauí cerca de 28.000 a 30.000 cabeças de gado (Barbosa, 1993: 15). Quanto à expansão do número de fazendas no Piauí, em 1697 havia 129 fazendas de gado instaladas, número que aumentou para 578 em 1772 (Mott, L.R.B. Piauí).E o próprio governo da província do Piauí tinha 35 fazendas no médio e alto Piauí.
Nesse contexto de necessidade de estabilização das condições de preservação do sistema econômico e social, perturbado por intensas reações dos habitantes nativos que resistiam às invasões dos colonizadores, manteve-se uma cerrada luta contra os gentios. Desde o início, antes mesmo da criação da capitania do Piauí, várias expedições ou bandeiras dizimaram muitas tribos. Ainda era necessário enfrentar os Pimenteiras e Acaroás, que habitavam o sudeste piauiense e causavam grandes prejuízos econômicos e sociais, devastando fazendas, destruindo casas e currais e matando vaqueiros. Foi nesse ambiente que surgiu José Dias Soares, com a patente de capitão do mato, para empreender várias expedições pela ribeira do Piauí, até concluir a expulsão dos Pimenteiras do médio e alto Piauí.
Em 1803, o governador Pedro José César de Meneses criou destacamentos especiais para reprimir os Pimenteiras e outras tribos insurretas. Três anos depois, os mesmos Pimenteiras raptaram Manoel Dias Soares, filho do colonizador José Dias Soares, da fazenda Jibóia, nas nascentes do rio Piauí.
Comovido pelo drama de Dias Soares, o governador Carlos César Burlamaqui patrocinou uma expedição comandada pelo próprio pai do raptado até as cabeceiras do Piauí. Ali, em 1807, Soares atacou muitos Pimenteiras no sítio Água Verde. No ano seguinte, foi até a lagoa Bonsucesso, onde realizou vários ataques.
Em 1810, Dias Soares, comandando 200 homens, investiu na bacia do rio Piauí e capturou cerca de 60 Pimenteiras,e ainda socorreu nesse ano
a vila de Jerumenha ,alvo de ataques nativos, desesperada pelas atrocidades sofridas. Várias fazendas foram devastadas e muitos colonos massacrados. Na mesma época, a vila de Parnaguá, no extremo sul do território, também foi atacada.
Em 1811, os Pimenteiras novamente atacaram Jerumenha e Parnaguá.Em 1815 foram considerados extintos,conforme o governador da Província.
Como se vê, não apenas os colonos atacavam, mas também eram dizimados, e muitas fazendas eram destruídas.
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