Ah! Como sinto falta da infância da minha vida, daqueles alegres dias vividos naquela casa branca de calçada alta, na Rua Grande, do meu pequeno Caracol, com uma porta e três janelas na fachada da frente e com degraus de subida na entrada, que já acessava a sala de visitas.
Compunha o restante da residência um quarto, defronte a esta sala, onde dormíamos meu pai e eu, desde a sua viuvez. Descendo mais um pouco para o interior da casa, através de novos degraus e um corrimão à direita, tinha um quarto à esquerda, onde dormiam minhas irmãs: Ivanilde, Elizete e Natália. Iracema já tinha casado e saído de casa. Adhemar, Daltro e Hugo dormiam num quarto contíguo ao das mulheres, em redes, mas havia uma cama para Ademar, que era mais velho e sofria da coluna. Defronte aos dormitórios, havia a sala de jantar com uma mesa bem grande, retangular e um conjunto de oito cadeiras daquelas de Januária (MG), que abriam para serem usadas e fechavam para serem guardadas em pé na despensa. A mesa tinha seus lugares definidos: na cabeceira ficava meu pai e, no lado defronte a ele, ficava a tia Ciana (nossa aparentada, que tinha uma cifose acentuada, mas criava minha irmã Magnólia, com quem dormia numa casa próxima à nossa, mas as refeições eram tomadas todas conosco); nas laterais da mesa ficávamos os demais irmãos, enquanto as mulheres comiam na mesa da cozinha, onde preparavam as refeições.
A cozinha representava a força motriz da casa. Ali constituía-se o núcleo principal do labor cotidiano e tinha sua ritualística especial para a confecção das refeições: eram indispensáveis um local para colocar a carga de lenha, um fogão com trempes para apoio das panelas, um pilão de duas bocas e um ou dois moinhos, pois com eles se preparavam o cuscuz de milho, a paçoca de carne seca ou o café torrado para o café da manhã.
Da cozinha tinha mais uns degraus que davam para o quintal cercado, onde lá no fundo ficava a privada de fossa seca e, no restante da área, meu irmão costumava armar umas arapucas para pegar passarinhos que vinham se fartar de farelos e cascas de arroz pilado, quando este era soprado ao vento em grandes peneiras, num balé caipira contrário à direção do vento.
Minha casa era simples, mas farta nessa época: vez por outra, seu Alventino vinha matar um leitão ou mesmo um porco cevado para ser transformado em carnes, linguiça e banha de porco, que seriam estocadas na despensa em giraus e utilizadas nas refeições por muitos dias; outras vezes, era trazido do povoado Lagoas um bode ou um carneiro, onde meu pai tinha umas criações em partilha com o velho Cantídio.
Sempre tinha pessoas que moravam conosco e ajudavam nos trabalhos de casa: arear copos com bucha de maxichão na beira da lagoa; encher os potes d'água; limpar e varrer a casa; lavar e passar a roupa. Isidora, Bárbara, França e tantas outras fizeram parte dessa convivência.
Aos filhos homens eram destinadas as tarefas de buscar água na lagoa em seus carros, que nada mais eram do que um varão de madeira, tendo uma extremidade apoiada no ombro e a outra extremidade em forma de gancho, acoplado a um eixo que unia duas rodas, uma em cada ponta do eixo. Ainda no varão, uma barra de madeira transversal em cruz, pregada a pouca distância do peito do condutor, servia para manobrar e dar direção às rodas; e um prego Cabral na linha média, entre o ombro e a roda, onde se pendurava uma lata de querosene que enchíamos de água para abastecimento dos potes de barro e para a utilização doméstica. Além disso, cuidávamos da alimentação dos porcos, levávamos os quebra-jejuns dos trabalhadores que faziam o preparo da terra, plantio e colheita dos cereais no sítio Pirajá, próximo da cidade. Também ajudávamos no armazém sob a responsabilidade do Ademar, filho mais velho dos homens. Ali vendiam-se mercadorias e miudezas em geral, sem contar a preocupação com os estudos na Escola 1º de Julho do professor Antônio Soares Rocha, homem idealista, que tinha trazido toda a estrutura pedagógica do antigo primário do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde tinha estudado, convicto da sua missão de servir, porquanto as recompensas financeiras nessa época eram desprezíveis, mesmo não havendo ainda escola pública na cidade.
Não menos fantástico era o convívio com meus amigos de geração, pois eram múltiplas brincadeiras e travessuras de que participávamos, como aquelas fazendas de "gado de ossos". Os ossos eram colhidos em várzeas, onde houvesse morrido alguma rês que nos fornecia nossos animais: cachorro, bezerros, vacas, conforme a nossa imaginação. Às vezes fazíamos o touro de barro e tudo era levado para o quintal de um amigo que fosse maior, e onde pudéssemos definir os compartimentos da fazenda imaginária: soltas, currais e os diversos pastos.
Outras vezes, caçávamos nos morros próximos: calangos, passarinhos com baladeiras e preás em armadilha de fojos.
À noite, outras brincadeiras surgiam ou nos reuníamos em algum canto de calçada para ouvir histórias de Trancoso, sempre em noites escuras. Havia sempre alguém que era bom nessa arte, como o Raimundo Vieira, que tinha um bom repertório de causos, inclusive histórias cantadas; e de assombração, que às vezes nos enchiam de medo, porque, num grande lapso de tempo, não havia energia na cidade e, na hora de voltar para casa, eu mesmo tinha que sair na tubada, sem nem olhar para os lados: o objetivo era chegar logo em casa e sentir-me protegido sob a luz de um candeeiro ou um lampião aceso!
Comentários
Postar um comentário