Caracol não ardeu em silêncio. Enquanto as labaredas consumiam casas, currais e lavouras, e o medo se espalhava pelas veredas do sul piauiense, a notícia da desgraça corria apressada pelos fios do telégrafo, pelas páginas dos jornais e pelos salões onde se decidiam os destinos do Estado. A guerrinha, como depois ficou conhecida, não se contentou em ser conflito de cercanias: fez-se palavra escrita, discurso inflamado e memória ferida.
O Desembargador Joaquim Vaz da Costa, em suas Arengas e Retalhos, deixou talvez o testemunho mais áspero e mais humano daqueles dias. Não escreveu com luvas de seda. Acusou, nomeou, responsabilizou. Disse que, para a satisfação de interesses políticos, se fizera a guerra de Caracol — guerra que juncara de cadáveres os caminhos, lavara de sangue as terras e devastara, pelo roubo, pelo saque, pelo incêndio e pela pilhagem, os mais belos campos de lavoura e criação de um município que ele chamava, com orgulho e dor, de heroico, altivo e invencível. Era o lamento de quem vira o sertão transformado em campo de vingança.
Mas não foi apenas a memória pessoal que registrou a tragédia. A imprensa, essa sentinela inquieta do tempo, levou para além das cercas e dos limites do município o clamor de Caracol. Em julho de 1917, o jornal A Notícia, de Teresina, publicou telegrama vindo de Caracol, via São Raimundo Nonato. Ali se contava, sem rodeios, a taça de amarguras sorvida pelos sertanejos.
Dizia o telegrama que, ao saber da chegada de uma pequena força policial, comandada pelo sargento Augusto, o coronel Aureliano dispersara seus homens. Acreditara, talvez com a ingenuidade de quem ainda confiava na palavra do governo, que haveria garantias para seus amigos, suas famílias e suas propriedades. Enganou-se. À sombra do prestígio oficial, o coronel Ângelo Gomes de Lima deu rédeas soltas à jagunçada. Vieram os saques, os incêndios, a pilhagem. A fazenda Baixão Novo virou cinza. A jagunçada do Rio de Baixo fez da vila e das redondezas território livre para o banditismo.
Quando chegou o tenente Pereira, com apenas seis praças, já nada havia a salvar. Mesmo que quisesse ser justiceiro, não poderia: a destruição estava consumada. O telegrama terminava com uma frase que mais parecia um suspiro de desalento: nada se pedia ao governo, que se mostrava surdo a tudo. E corria a notícia sombria de que mais de setenta jagunços haviam partido de Jatobá, em Pernambuco, para reforçar as fileiras de Ângelo.
Caracol, então, deixou de ser apenas vila sertaneja para tornar-se assunto de gabinete e tribuna. O jornal A TARDE da Bahia "publicou amplas reportagens a respeito das tropelias rein
antes em Caracol".No Senado da República, o nome do pequeno município ecoou entre discursos e acusações. De um lado, o senador Abdias Neves, voz crítica, denunciava a cumplicidade do governo do Piauí com a barbárie que se instalara no sul do Estado. Do outro, Ribeiro Gonçalves, aliado do governador Eurípedes de Aguiar, erguia a palavra em defesa da administração, tentando reduzir a guerra a um desentendimento entre coronéis.
Essa defesa encontrou guarida até na imprensa da capital federal. O jornal carioca A Lanterna publicou artigo em favor do governo piauiense, o que provocou reação imediata do A Notícia, em Teresina. Em outubro de 1917, o jornal comentava, com ironia e indignação, as manobras discursivas que transformavam Ângelo Acelino de Miranda,e não Ângelo Gomes de Lima,em vítima e Aureliano Dias de origem baiana,em agressor, como se a devastação de Caracol fosse fruto apenas de rixas pessoais e não de uma engrenagem maior de poder e violência.
E de Caracol veio nova resposta, novamente por telegrama. Um texto curto, mas carregado de fúria contida, denunciava o cinismo com que o detentor do poder informara o Presidente da República sobre os fatos. Reafirmava-se ali que Aureliano era filho legítimo da terra, descendente daqueles que haviam desbravado o sul do Piauí nos tempos do Visconde da Parnaíba. E dizia-se, sem meias palavras, que Caracol estava entregue à sanha de sicários pernambucanos, protegidos pela política e pela distância.
Assim, enquanto nos jornais se discutia quem tinha razão, e no Senado se trocavam acusações e defesas, Caracol ardia. Ardía nas casas queimadas, nas roças destruídas, nos rebanhos dispersos. Ardía também na memória dos que ficaram, dos que partiram e dos que nunca mais voltaram. A guerrinha revelou, com crueza, o velho drama do sertão: a distância entre a lei escrita e a justiça vivida, entre o poder proclamado e o sofrimento real.
Por isso, Caracol não foi apenas palco de um conflito armado. Foi espelho de uma época em que o Estado se confundia com os interesses dos homens fortes, e em que o sertanejo aprendia, à força, que sua dor só encontrava eco quando virava notícia — e, ainda assim, muitas vezes distorcida. O fogo que consumiu Caracol apagou casas e lavouras, mas acendeu uma memória que resiste ao tempo, pedindo, ainda hoje, que não se esqueça.
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