Adriano não gostava de falar. No sertão, aprendera cedo que palavra solta vira denúncia. Era alto, ossudo, pele curtida de sol, e tinha o olhar de quem media o mundo antes de agir. Tornara-se cabra de confiança de Aureliano Augusto Dias não por bravura exibida, mas por constância. Estava sempre lá quando era preciso.
Conhecia as trilhas como quem conhece o próprio corpo. Sabia onde a caatinga se fechava e onde se abria, onde a água ainda resistia nos tempos de seca. Durante os anos de perseguição, foi ele quem guiou grupos inteiros sem deixar rastro, quem levou recados entre fazendas e quem retirou famílias ameaçadas no meio da noite.
Na manhã do ataque à Sossego, Adriano não estava na fazenda. Isso o perseguiu por anos. Carregou culpa silenciosa por não ter morrido ali, junto dos que tombaram. Talvez por isso tenha sido o primeiro a se apresentar quando Aureliano decidiu reagir. Não pediu ordens nem recompensa. Apenas disse:
— Eu vou.
No ataque final, vindo de Pilão Arcado, Adriano avançou na frente. Não buscava vingança pessoal. Para ele, a luta era ajuste — o sertão em equilíbrio novamente. Depois da vitória, voltou ao anonimato. Viveu como sempre vivera: pouco visto, pouco lembrado, mas essencial. No sertão, os homens como Adriano raramente entram para a história escrita. Mas sem eles, nenhuma história acontece.
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