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Anísio Dias, a lenda da Guerrinha do Caracol.

Entre os nomes que atravessaram a chamada Guerrinha do Caracol, nos anos de 1916 a 1917, nenhum foi repetido com tanto assombro quanto o de Anísio Dias. Sobrinho de Aureliano Augusto Dias e Leovegildo Dias, Anísio não se fez conhecido por cargos nem por discursos, mas pelo modo como se movia no sertão — ligeiro, silencioso e certeiro.
Diziam que nascera com o corpo pronto para a fuga e o olhar feito para a mira. Era baixo, seco, nervoso, desses homens que parecem sempre atentos ao vento. Dominava como poucos o rifle papa-amarelo, arma longa e traiçoeira, que exigia pulso firme e paciência. Anísio manejava o rifle como extensão do próprio corpo. Atirava pouco, mas não errava. No sertão, isso bastava para criar fama.
As histórias cresceram com o tempo, como crescem todas as que sobrevivem. Contava-se que Anísio se deitava numa rede presa apenas por punhos de corda e mandava cortá-los ao mesmo tempo. A rede caía, e ele, num só movimento, pousava de pé no chão, arma em punho. Uns diziam que era exagero. Outros juravam ter visto. No Caracol, ninguém discutia lenda — aceitava-se.
Mas houve fatos que dispensavam imaginação.
O ataque à casa de João Augusto, pai de Anísio, marcou um desses momentos. Soldados aliados do Intendente Ângelo da Jia, acompanhados de jagunços, cercaram a residência ainda antes do amanhecer. Dentro, um grupo de aurelianistas resistiu como pôde. O tiroteio foi cerrado. As paredes de barro estalaram sob os impactos. Ficou claro que permanecer ali significava morrer.
Foi Anísio quem assumiu o comando da retirada.
Conhecia como poucos a lagoa que circundava a cidade, formando um diadema natural ao redor de Caracol. Enquanto os jagunços avançavam, ele conduziu o grupo por uma saída estreita nos fundos da casa, em direção à água. Não houve pânico. Houve ordem seca e movimento rápido.
Sob fogo inimigo, atravessaram a lagoa a nado. Alguns feridos, outros exaustos, todos vivos. Do outro lado, já os aguardavam familiares e aliados, armados e prontos para o contra-ataque. A perseguição dos jagunços cessou ali. O sertão, mais uma vez, protegera os seus.
Depois desse episódio, o nome de Anísio cresceu. Tornou-se chefe de grupo, organizador de emboscadas, responsável por golpes rápidos e recuos precisos. Não buscava confronto aberto. Preferia a surpresa, a desorientação do inimigo, o ataque curto seguido do desaparecimento. Era guerra de quem conhecia a terra melhor do que o adversário.
Muitos afirmavam que Anísio nunca dormia duas noites no mesmo lugar. Outros diziam que era capaz de ouvir o passo do inimigo antes mesmo de vê-lo. Verdade ou não, o fato é que os soldados e jagunços passaram a temer o mato quando seu nome era sussurrado.
Quando o conflito chegou ao fim, com a expulsão de Ângelo e o retorno da família Dias ao controle político, Anísio desapareceu aos poucos da linha de frente. Como muitos homens do sertão, voltou ao anonimato. Não procurou recompensa, nem reconhecimento oficial.
Mas a lenda ficou.
Ainda hoje, quando se fala da Guerrinha do Caracol, alguém sempre lembra do homem que atravessou a lagoa sob bala, do rifle papa-amarelo que não falhava, do corpo ligeiro como veado do mato. E, no sertão, isso é o mais perto da imortalidade que um homem pode alcançar.

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