Ângelo Gomes de Lima, conhecido como Coronel Ângelo da Jia, foi um fazendeiro de grande influência regional e uma das figuras mais notórias do sistema de coiteirismo ligado ao cangaço, especialmente ao bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Diferentemente do estereótipo do coiteiro humilde ou marginalizado, Ângelo da Jia integrava a elite agrária sertaneja, exercendo poder político, econômico e social no sertão de Pernambuco, além de manter vínculos familiares com a política pernambucana.
Importa destacar que Ângelo da Jia não era um cangaceiro em fuga, mas sim um coronel rural, representante típico do coronelismo nordestino, cuja relação com o cangaço se dava por meio de alianças estratégicas. Sua atuação como coiteiro consistia em oferecer abrigo, mantimentos, informações e suporte logístico ao bando de Lampião, em troca de proteção, prestígio e influência. Essas relações refletiam a complexa rede de interesses que marcou o sertão nordestino nas primeiras décadas do século XX, onde coronéis e cangaceiros mantinham pactos tácitos de conveniência mútua.
Ângelo da Jia era proprietário da Fazenda Poço do Ferro, localizada, à época, em uma região estratégica entre o município de Floresta (PE) e o território que hoje corresponde a Ibimirim (PE). Pela sua posição geográfica privilegiada, a fazenda tornou-se um ponto de apoio recorrente para Lampião e seus homens, sendo frequentemente utilizada como local de descanso, reabastecimento e reorganização do bando.
Antes de se consolidar como coiteiro de Lampião, Ângelo da Jia envolveu-se em conflitos políticos e econômicos no sul do Piauí, especialmente no município de Caracol, onde chegou por volta de 1910. Na região, passou a explorar atividades ligadas à extração da maniçoba, recurso amplamente disputado à época, e rapidamente se inseriu na política local. Esses interesses o colocaram em rota de colisão com lideranças regionais, entre elas Aureliano Augusto Dias, com quem travou disputas marcadas por violência e antagonismos políticos.
Em Caracol, Ângelo da Jia exerceu o cargo de Intendente Municipal entre 1916 e novembro de 1917, período caracterizado por forte repressão política, perseguições e instabilidade administrativa. Sua gestão foi amplamente contestada, culminando em sua saída do município e retorno definitivo a Pernambuco, após intensa resistência organizada por seus opositores locais.
De volta ao sertão pernambucano, Ângelo da Jia fortaleceu ainda mais sua ligação com o cangaço. A Fazenda Poço do Ferro tornou-se cenário de um dos episódios mais emblemáticos da história do cangaço: a morte acidental do cangaceiro Antônio Ferreira, irmão de Lampião, ocorrida entre o final de 1926 e o início de 1927. Antônio Ferreira faleceu após um disparo acidental durante o manuseio de uma arma. O local de seu sepultamento permanece até hoje assinalado por uma cruz, conservada como marco histórico.
Atualmente, a Fazenda Poço do Ferro, situada no município de Ibimirim (PE), integra o roteiro do turismo histórico do Cangaço, sendo reconhecida como espaço de memória dos conflitos, alianças e contradições que marcaram o sertão nordestino no início do século XX.
A trajetória de Ângelo Gomes de Lima ilustra de forma exemplar a complexidade das relações entre coronelismo, política regional e cangaço, evidenciando como figuras de poder local atuaram simultaneamente como agentes da ordem institucional e mediadores de práticas ilegais, moldando profundamente a história social e política do Nordeste brasileiro.
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