Herculano não tinha qualquer ligação com a terra de Caracol. Viera de Pernambuco ao lado de Ângelo da Jia, atraído pelas promessas de mando, riqueza e ganho fácil. Alto, de barba cerrada e olhos frios, cultivava a fama de homem cruel. Gostava de ser temido. Para ele, o poder precisa de platéia ,e a violencia era um espetáculo necessário .
Foi Herculano quem comandou muitos dos ataques às fazendas ligadas aos Dias. Não se limitava a cumprir ordens: exagerava nelas. Gostava de humilhar antes de ferir, de deixar marcas visíveis. A violência, para ele, era linguagem.
No ataque à fazenda Baixão Novo, esteve entre os primeiros a entrar. Diziam que foi ele quem autorizou a degola do vaqueiro — não por justiça, mas para agradar ao Intendente e consolidar sua posição. Com o tempo, passou a se comportar como se fosse intocável.
Quando Aureliano retornou , disposto a retomar o que era seu, Herculano foi um dos primeiros a fugir. Não por medo, mas por cálculo. Sabia reconhecer quando o vento mudava. Partiu antes que Ângelo para Pernambuco e desapareceu da história local. No sertão, homens como ele não deixam saudade — apenas rastros de ruína.
continuou praticando assaltos em fazendas ,no seu percurso rumo ao Pernambuco. Após sua fuga de Caracol, esteve numa fazenda nas proximidades de Remanso da Bahia. Encontrou apenas a mulher do proprietário e suas duas filhas. Sem resistencia ele e o bando tomaram tudo o que puderam carregar: dinheiro, jóias, mantimentos e animais.
Mas para Herculano o saque nunca bastava .
Tomado pela brutalidade que lhe era natural, violentou uma das moças ,diante dos próprios homens. Depois num divertimento cruel obrigou a mae da jovem a saltar pelo terreiro ,enquanto disparava tiros de pistola rente aos pés da mulher ,fazendo a terra explodir em poeira ao redor dela. As risadas dos cangaceiros misturavam ao choro desesperado que ecoava pela casa devastada .
Quando terminaram , partiram ,levando consigo o silencio humilhado daquela família .
Dias depois , o coronel Simplicio da Boa Vista regressou de uma viagem de negócios .Ao encontrar a fazenda destruida e ouvir o relato da esposa e das filhas, não derramou lágrimas ,nem levantou a voz. Apenas fechou o semblante. Homem endurecido pelo sertão ,sabia que certas afrontas só se lavavam em sangue .Reuniu seus jagunços e começou acolher informações pelos povoados, vendas e bebedouros do caminho. Conhecia as rotas usadas por salteadores e fugitivos .Sabia onde descansavam, onde conseguiam água e quais trilhas inevitavelmente tomariam rumo ao norte.
Depois de um dia inteiro de perseguição sob o sol bruto da catinga , encontrou o grupo ja distante , mas ainda dentro do alcance de sua vingança.
Antes do combate ,deu uma unica ordem aos seu homens : - Herculano eu quero vivo. Nem que morra o resto.
O encontro foi feroz
Tiros rasgaram a mata seca ,,cavalos assustados, poeira e o cheiro de polvora Aluta durou durou longo tempo,corpo contra corpo, faca contra faca ,ate que os homens do Coronel conseguiram cercar Herculano, ja ferido e exausto.
Amarram -no ainda vivo.
Simplicio aproximou-se devagar, olhando nos olhos do facínora sem demonstrar raiva - apenas uma frieza pesada ,quase solene .Não havia tribunal naquela terra .Nem juiz .Nem perdão.
Herculano ,antes do fim ,por ordem do coronel, arrancaram -lhe os bagos .Simplicio mandou colocá~los num frasco cheio de álcool e levou o macabro troféu para a pequena vila próxima de sua fazenda .Exibiu-o diante do povo como aviso e exemplo.
A população ,embora horrorizada , observava com uma espécie de admiração silenciosa . No sertão daqueles tempos ,justiça e vingança caminhavam juntas ,montadas no mesmo cavalo.
E assim terminou Herculano, não como homem, mas como lembrança brutal de uma terra onde o medo mandava mais que a lei, e onde a violencia ,era muitas vezes , a única língua compreendida.
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