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No dia em que a fazenda Sossego ardeu em chamas.

O sertão de Caracol aprendera cedo que a política não se fazia apenas em mesas de madeira ou discursos na praça. Ali, decidia-se com pólvora, punhal e alianças seladas na sombra. Em 1916, quando a maniçoba passou a jorrar riqueza do chão seco, a vila deixou de ser apenas terra de criadores e tornou-se território de disputa. Com a borracha vieram os homens — e com eles, a desordem.
Entre os recém-chegados estava Ângelo Lima, conhecido nos barracões como Ângelo da Jia, pernambucano de Tacaratu. Chegou discreto, trazendo fala mansa e gestos medidos. Soube ganhar a simpatia do povo caracolense, frequentar as casas influentes e, sobretudo, aproximar-se da família Dias, cujas raízes se confundiam com a própria fundação da cidade. À sombra de Leovegildo Dias, proprietário respeitado, e sob a liderança política de Aureliano A. Dias, então Intendente, Ângelo parecia apenas mais um sertanejo em busca de ascensão.
Mas o sertão desconfiava dos homens que sorriam demais.
A mudança começou com a queda de Aureliano Dias do comando da cidade. A eleição do governador Eurípedes de Aguiar alterara o equilíbrio das forças regionais, e as lideranças de Caracol e São Raimundo Nonato trataram de alinhar-se ao novo poder. Iniciou-se, então, uma perseguição sistemática aos antigos intendentes e chefes políticos, como se a história anterior precisasse ser apagada para que o presente se afirmasse.
Foi nesse instante que Ângelo revelou seu verdadeiro rosto. Com habilidade fria, abandonou os antigos aliados e juntou-se aos adversários de Aureliano. O homem que fora hóspede tornou-se algoz. Nomeado novo Intendente de Caracol, passou a comandar não apenas a administração da vila, mas uma máquina de medo cuidadosamente montada.
Jagunços armados, muitos disfarçados de seringueiros da maniçoba, espalharam-se pelas fazendas. O pretexto era o trabalho; o objetivo, o controle absoluto. Saques, roubos de gado, humilhações públicas e ameaças tornaram-se rotina. Quem não se alinhava ao novo governo sentia o peso da repressão. E nenhum nome soava mais incômodo do que Dias.
A ofensiva mais brutal ocorreu numa manhã de maio, na fazenda Sossego, propriedade de Leovegildo. O dia ainda despertava quando os primeiros tiros cortaram o ar. Cercada por homens armados, a fazenda tornou-se palco de um combate desigual. De um lado, jagunços e soldados a serviço do Intendente; do outro, os cabras da família Dias, defendendo com coragem desesperada o que restava de seu mundo.
O tiroteio prolongou-se por horas. O chão bebeu sangue. Corpos tombaram sob o sol que subia indiferente. Mas a violência atingiu seu ápice quando o vaqueiro da Sossego foi capturado. Homem simples, conhecido pelo trabalho fiel, foi acusado de haver matado, em confronto anterior, um jagunço ligado ao barracão de Ângelo — parente próximo do Intendente. Sem julgamento, sem palavra final, foi degolado diante dos demais. A lâmina não buscava apenas a carne: buscava o medo.
Após o massacre, veio o fogo. A casa da fazenda foi incendiada, as plantações destruídas e o engenho de cana reduzido a escombros. A Sossego, antes símbolo de prosperidade, transformou-se em ruína fumegante. O sertão, acostumado à seca, testemunhava agora a devastação provocada pelos homens.
O alvo principal, contudo, escapara. Leovegildo Dias não estava na fazenda. Naquele mesmo momento, encontrava-se na Vila, reunido com Aureliano, discutindo os rumos a tomar diante da política de destruição que se armava contra sua família. Ambos compreendiam que não se tratava apenas de disputa política, mas de uma tentativa deliberada de extinção.
A ironia feria como lâmina. A família que ajudara a erguer Caracol, que desde os tempos do comandante José Dias Soares — bisavô de Aureliano — conquistara aquelas terras no final do século XVIII e início do XIX, agora via seu legado ameaçado por forasteiros. Homens que chegaram sob o pretexto da maniçoba haviam tomado o poder por meio de artimanhas e violência.
Naquela noite, enquanto a fumaça da Sossego ainda se espalhava pelo vento, Leovegildo fitou o escuro do sertão e compreendeu que não havia mais retorno. O conflito deixara de ser político. Tornara-se uma guerra pela sobrevivência.
E o sertão, mais uma vez, preparava-se para cobrar seu preço.

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