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O ATAQUE À BOLANDEIRA





Naquela noite de junho de 1917, o casarão de Ângelo da Jia parecia respirar em vigília. A casa grande, de paredes grossas e caiadas, erguia-se como sentinela no alto do terreno, coroada por um amplo sótão onde se acumulavam velhas arcas, redes, armas cansadas e segredos de sangue. Ali residia Ângelo com seus protegidos — homens que não eram família nem empregados, mas algo mais áspero: verdadeiros cães de guarda, moldados na obediência cega e na crueldade aprendida à bala.
Caracol dormia mal. O vento varria o terreiro, fazendo ranger as telhas antigas, enquanto os vigias circulavam em passos curtos, desconfiados, mãos sempre próximas do gatilho. A fama do lugar corria longe: quem se aproximasse sem permissão não voltava para contar. Mas naquela noite o destino vinha decidido, montado no silêncio.
Os cabras de Aureliano Dias chegaram sem alarde. Vinham marcados pelas agressões sofridas, pelos espancamentos, pelas mortes sem justiça praticadas pelos jagunços de Ângelo. Não era ataque por ganho; era represália — dura, sem concessão, como mandava o código não escrito do sertão. Cada homem sabia o que fazer, e ninguém perguntava o porquê.
Quando o primeiro tiro estalou, seco, pareceu partir o tempo. O vigia da frente tombou antes de gritar. Logo o terreiro se incendiou em estampidos, sombras correndo, ordens sussurradas e depois gritadas. A casa grande acordou em sobressalto. Portas se fecharam às pressas, janelas foram escancaradas para cuspir fogo. Do sótão, responderam com tiros cegos, na esperança de conter o cerco.
Mas os cabras de Aureliano avançavam como quem conhece o caminho da dor. Incendiaram o curral, espalharam o pânico, cortaram as rotas de fuga. Um a um, os cães de guarda caíam, alguns tentando resistir até o último cartucho, outros implorando o que nunca haviam concedido. O chão do terreiro virou mapa de sombras e corpos, marcado por sangue escuro que a lua insistia em revelar.
Dentro da casa, a confusão era total. Gritos se misturavam ao estalar das balas, ao choro sufocado de quem compreendia, tarde demais, que a força de ontem cobrava seu preço. O sótão, outrora refúgio, transformou-se em armadilha: fumaça, escuridão, ecos de passos apressados e o medo batendo nas tábuas antigas.
Quando o tiroteio cessou, o silêncio veio pesado, quase respeitoso. A casa grande permanecia de pé, mas ferida — janelas estilhaçadas, portas arrombadas, marcas de fogo e chumbo contando uma história que ninguém esqueceria. Os homens de Aureliano não ficaram para celebrar. Recolheram-se como chegaram, deixando para trás a mensagem que o sertão entende sem letras: agressão não fica sem resposta.
Ao amanhecer, Caracol encontrou o casarão mudo, guardando em suas paredes a memória daquela noite. Junho de 1917 ficaria marcado não apenas pelas mortes, mas pela certeza de que, naquele pedaço de mundo, a violência girava em roda — e sempre voltava ao ponto de partida.
Até os anos sessenta o casarão de Ângelo da Jia,conhecida como  Bolandeira,mantinha -se de pé  com as marcas de balas de rifles nos  paredões como registros gráficos de uma era de violência num mundo sem lei

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