O ano de 1916 encontrou Caracol em plena ebulição. A pequena vila sertaneja crescia desordenadamente, impulsionada pela febre da maniçoba, cuja borracha, valorizada nos mercados distantes, prometia fortuna rápida àqueles que se dispusessem a enfrentar a aspereza da caatinga. Por veredas poeirentas chegavam homens de Pernambuco, Bahia e Ceará, em levas tão numerosas que pareciam cardumes humanos invadindo o sertão.
Erguiam-se barracões de madeira e barro quase da noite para o dia. Neles viviam e se organizavam grandes grupos de seringueiros, sustentados por patrões que, mais do que comerciantes, exerciam poder quase absoluto sobre homens e terras. Caracol tornou-se um formigueiro humano: rostos desconhecidos, passados ocultos, personalidades rudes e, não raro, violentas. O progresso chegava misturado ao medo.
O comércio prosperava. Bodegas se multiplicavam, a borracha corria em abundância, o dinheiro passava de mão em mão com facilidade. E onde o dinheiro corre solto, os preços sobem e os excessos florescem. Aos fins de semana, bares apinhados, bailes improvisados, fuzarcas espalhadas pela cidade e pelos barracões quebravam a monotonia dos dias de trabalho duro.
Foi numa dessas noites de festa, após as comemorações de São Sebastião, na casa de Dona Ritinha — devota fervorosa que todos os anos abria as portas para louvar seu santo — que o destino começou a se desenhar de forma trágica. À revelia dos anfitriões, surgiram homens estranhos ao convívio local, recém-chegados aos sertões da maniçoba. Entre eles, um sujeito conhecido por Herculano.
Em meio à música e ao calor da dança, Herculano voltou seus olhos para Virgília, amiga de Dona Ritinha. Aproximou-se com ousadia e tentou tirá-la para dançar. A resposta foi firme e respeitosa: Virgília era mulher casada e não dançava com estranhos. A recusa feriu o orgulho do forasteiro. Embriagado e tomado por um senso distorcido de honra, murmurou ameaças. Aquilo, dizia ele, não ficaria assim.
Justiniano, marido de Virgília, homem da terra, vaqueiro conhecido e respeitado, logo soube do ocorrido. Seu impulso foi o de buscar satisfação, mas a esposa, temendo desgraça maior, implorou-lhe que esquecesse o episódio. Tratava-se, afinal, de um bêbado sem passado conhecido. Melhor deixar o tempo apagar o insulto.
Mas Herculano não era homem de esquecer afrontas. Dono de barracão, cercado de capangas, viera de Serra Talhada, em Pernambuco, região marcada pelas sombras do cangaço, onde a lei do mais forte ainda ditava o destino dos homens. Para ele, a recusa de Virgília e a postura altiva de Justiniano transformaram-se em desafio pessoal.
Em nova investida, tentou arrastar Virgília à força para seu barracão. Ela conseguiu escapar mais uma vez, socorrida pela chegada providencial de parentes que viviam em Caracol. Humilhado, Herculano decidiu ferir Justiniano onde mais doía: na honra e no sustento.
Mandou seus cabras roubarem duas reses da Fazenda Viana, propriedade do vaqueiro. Ao notar o desaparecimento do gado, Justiniano saiu à procura, imaginando ataque de cobras ou furto comum. Encontrou, porém, dois couros estendidos ao sol, espetados no chão, em terras pertencentes a Herculano. Reconheceu-os de imediato. Eram de suas vacas. Sem dizer palavra, retirou-os e levou-os para casa.
Aquele gesto selou a guerra.
Para Herculano, já não bastava o desejo de possuir a mulher alheia. Queria vingança. Jurou matar todos os que encontrasse na casa de Justiniano, sem piedade.
Numa tarde de feira, quando a cidade se recolhia e a noite descia sobre os sertões, Herculano reuniu três de seus cabras e seguiu para a Fazenda Viana. Chegaram já no escuro cerrado. Dentro da casa, dormiam Justiniano, Virgília e os três filhos pequenos.
O grito rompeu o silêncio da noite:
— Acorda, caboclo, que vim acertar as contas!
Justiniano despertou com o pressentimento da morte. Com calma forçada, orientou o filho mais velho sobre como fugir com os irmãos, caso a casa fosse invadida. Armou-se com sua carabina papa-amarelo e tomou posição num quarto que servia de trincheira improvisada, com uma abertura na parede voltada para o quintal — defesa e possível rota de fuga.
Os tiros começaram. Porta e janelas estalaram sob o impacto das balas. Justiniano respondeu disparo por disparo. A noite inteira foi consumida pelo fogo cruzado. Quando a aurora começou a clarear o sertão, os atacantes conseguiram invadir a casa. Sem munição, passaram às armas brancas.
Enquanto isso, os meninos escaparam por uma passagem pouco conhecida, escondendo-se num capão próximo, de onde mais tarde seguiriam até a casa de um tio, a três quilômetros dali.
A luta corpo a corpo foi rápida e brutal. Justiniano caiu, apunhalado por um dos cabras de Herculano — o mesmo que fora atingido por um tiro seu e também morreu. Virgília, num último gesto de coragem, matou outro agressor com uma mão de pilão. Mas não escapou: uma punhalada atravessou-lhe o ventre, tirando-lhe a vida ali mesmo, no chão da própria casa.
Ao amanhecer, a Fazenda Viana estava em silêncio. Dois pais mortos, uma família destruída.
Quando os meninos chegaram à casa do tio e contaram o ocorrido, Caracol entrou em alvoroço. Mas não houve justiça. Naquele tempo, a única lei presente era a que cobrava impostos da borracha. O sangue sertanejo não tinha quem o defendesse.
Os órfãos foram espalhados entre parentes. Irmãos separados, infâncias roubadas.
Um deles, José Gregório Ribeiro, carregou as marcas dessa noite por toda a vida. Aos quinze anos, cansado dos maus-tratos e do peso da memória, fugiu num comboio de tropeiros rumo a Nova Lapa, às margens do Gurguéia, terra de febres e morte. De lá seguiu para Jerumenha, onde se tornou mestre-escola, ensinando as primeiras letras em casas de famílias abastadas — como se fazia num sertão abandonado pelo Estado.
A inquietação, porém, não o deixou ficar. Em balsas pelo Parnaíba, chegou a Teresina; de trem, seguiu a São Luís; depois, a Belém do Pará, onde ingressou no Exército. Foi ali que, entre dificuldades e disciplina, conseguiu estudar, formar-se e, anos depois, tornar-se advogado.
Seus irmãos ficaram em Caracol, presos ao destino comum do sertão: trabalho duro, perdas precoces, vidas breves. Uma irmã, Aurora Ribeiro, resistiu ao tempo e viveu até os 105 anos. Outro morreu aos 48.
José Gregório faleceu em 1990, em Picos, aos 64 anos, exercendo a advocacia. Sobreviveu à barbárie para contar, ainda que em silêncio, a história de uma época em que a borracha valia mais que a vida e o sertão aprendia, à força, o preço do abandono
Comentários
Postar um comentário