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SOMBRAS DE CARACOL

                           
Naquela manhã, minha missão era levar o almoço para seu João Preto, filho do velho João Olímpio, homem que havia servido à família Dias nos tempos mais duros da chamada guerrilha de Caracol. Ao lado do meu avô, Aureliano, eles enfrentaram os rabudos emigrados de Pernambuco, que chegaram à região disfarçados de seringueiros na exploração da maniçoba, mas logo se revelaram verdadeiros cangaceiros. Por quase dois anos, espalharam terror pela vila de Caracol.
Meus pais guardavam profunda gratidão pela família de João Olímpio. Por isso, ele e seus filhos sempre tiveram prioridade nos trabalhos da lavoura de meu pai e de meus tios. Muitas vezes, João Preto era encarregado de coordenar os demais trabalhadores, especialmente quando a safra era farta. Mesmo nos momentos mais críticos, a gratidão nunca lhes negou trabalho.
Peguei o farnel: uma tigela de esmalte com arroz, feijão, ossada de boi e um quarto de rapadura. Tudo estava coberto por um prato fundo e cuidadosamente amarrado com um guardanapo de tecido, cujas pontas se cruzavam e se prendiam de modo a formar uma alça, facilitando o transporte. Segui então rumo ao sítio Pirajá, nos arredores da cidade.
À sombra de uma velha mangueira, encontrei João Preto já à espera, ansioso pelo repasto. Era um homem de cerca de cinquenta anos, forte, musculoso, com mechas embranquecidas no cabelo. De trato afável e acolhedor, tinha sempre uma história ou fato curioso para contar. Enquanto ele devorava a refeição, afastei-me um pouco para observar os arredores.
Segui por uma linha curva de aproximadamente cem metros até alcançar um trecho onde exuberantes laranjeiras dividiam espaço com um solitário pé de cajueiro. Ali se marcava o limite do terreno que, no inverno, alagava e era utilizado para o plantio de arroz. Paralelo a essa área, estendia-se um capão formado por várias goiabeiras entrelaçadas, encravado entre duas grandes mangueiras, distantes cerca de um quarteirão uma da outra. Era ali que nos deliciávamos com mangas de fiapo e goiabas doces. O local também servia de parque infantil — cenário de aventuras, conquistas e pequenas glórias quando visitado por mim e meus colegas de infância.
Prova maior de esperteza e agilidade era conseguir subir na primeira mangueira e, de galho em galho, passar pelas goiabeiras até alcançar a outra mangueira, sem jamais tocar os pés no chão. Muitas vezes nos lançávamos nessa travessia arriscada, excitados pela competição, embora cientes dos riscos de escoriações, ferimentos ou quedas mais sérias.
À esquerda desse conjunto de árvores começava um altiplano que descia até um baixio reservado ao cultivo do feijão-de-corda — a única variedade conhecida na região — consorciado com milho. Essas plantações se estendiam por cerca de quatro tarefas, limitando-se com as terras de seu Isael Macedo, conhecido como Fortaleza, e com as da Fazenda João Bento, pertencente à senhora Odília. Meu pai mantinha constantes desavenças com ela, por conta das criações que invadiam nossas cercas, pisoteando e devorando as lavouras.
A colheita exigia o esforço conjunto de toda a família, além de alguns trabalhadores diaristas. Era preciso apanhar a produção e transportá-la até o depósito que meu pai mantinha no Mercado Municipal. O feijão seco em vagem seguia para nossa casa, onde era debulhado em meio a animadas cantorias noturnas. Depois, era vendido no armazém de meu pai ou ensacado para negociação com caminhoneiros nos dias de feira.
Quando me dei conta de que era hora de recolher a louça usada por João Preto — que já se preparava para a segunda etapa de sua labuta —, aproximei-me dele. Muitas vezes aproveitava esse momento para instigar o velho capanga a contar histórias sobre os barulhos de Caracol, ocorridos em 1916: mortes, incêndios de fazendas, vinganças cruéis e até exumações de cadáveres. Essa era, afinal, a razão da minha preferência por aquele serviço — hoje chamado de delivery. Em João Preto eu tinha uma testemunha ocular dos fatos, cuja memória ainda preservava imagens vívidas capazes de enriquecer a minha.
Uma dessas histórias envolvia meu tio Aristides Dias, que assassinara o próprio primo após sofrer uma grave desfeita. João Preto, sempre minucioso, narrava que Aristides aproveitou o momento em que o desafeto tirava leite no curral, ainda ao amanhecer, na fazenda Angico, ao lado de sua mãe, Vigolvina. Disparou três tiros de rifle calibre 44, ignorando por completo a presença da parenta. Tratava-se, segundo os códigos da época, de uma lavagem de honra — valor que, naquelas circunstâncias, se sobrepunha até mesmo aos laços de sangue. O capitão Aristides estava acompanhado justamente do velho João Olímpio, seu capanga de absoluta confiança.
Essas histórias sombrias, carregadas de tensão, faziam parte do cotidiano de Caracol. São lembranças que me acompanharam ao longo da vida e que, ainda hoje, evocam o realismo cru e o suspense daqueles tempos difíceis — e, por isso mesmo, inesquecíveis.

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