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Sinhô Pereira e a encruzilhada do cangaço



Sinhô Pereira, nome pelo qual ficou conhecido Sebastião Pereira da Silva, foi um dos mais destacados cangaceiros do sertão pernambucano nas primeiras décadas do século XX. Seu ingresso no cangaço ocorreu em meio a conflitos familiares e à busca por vingança, especialmente após o assassinato de seu irmão Né, morto em disputas entre famílias influentes da região do Pajeú.
Descendente do coronel Andrelino Pereira da Silva, conhecido como o Barão do Pajeú, Sinhô Pereira pertencia a uma família tradicional e politicamente relevante de Pernambuco. Recebeu educação considerada satisfatória para os padrões do sertão da época e cresceu inserido em um ambiente marcado por disputas de poder, honra e violência. Antes de ingressar formalmente no cangaço, já havia participado de embates armados envolvendo famílias rivais na região de Vila Bela.
Nesse mesmo contexto surgem os irmãos Ferreira, oriundos de Alagoas, entre eles Virgulino Ferreira da Silva, futuro Lampião. Tanto os Pereira quanto os Ferreira tinham em comum a inimizade com José Saturnino, figura central em diversos conflitos sertanejos. Diferentemente de Sinhô Pereira, porém, os Ferreira ainda não possuíam recursos financeiros, prestígio social ou experiência consolidada na vida do cangaço.
Pesquisadores do tema indicam que um pedido de Padre Cícero Romão Batista foi decisivo para que Sinhô Pereira e seu primo Luiz Padre deixassem Pernambuco, buscando afastar-se dos confrontos armados. O destino pretendido era o  estado de Goiás, mais precisamente a vila de São José do Duro, atual Dianópolis, no Tocantins.
Durante a viagem, os primos seguiram caminhos distintos. Luiz Padre atravessou o Piauí, passando por Uruçuí e Corrente, até alcançar território goiano. Sinhô Pereira, por sua vez, tentou atingir Corrente passando pela vila de Caracol, acompanhado de quatro homens: Cacheado, Gato, Raimundo Morais e Coqueiro.
Em Caracol, o grupo foi recebido pelo coronel Aureliano Augusto Dias, personagem influente na região dos maniçobais. Segundo relato do escritor William Palha Dias, em Papo-Amarelo, Drástica Solução, a chegada de Sinhô Pereira chamou atenção pela segurança e organização do grupo:
“Entraram na rua como se já estivessem informados da casa onde desejavam aportar. Era um casal, acompanhado de quatro homens armados. Ao contatar o dono da casa, o homem apresentou-se: ‘Sou Sebastião Pereira, também conhecido por Sinhô Pereira, e esta é minha esposa Alina. Vimos do sertão de Pernambuco e desejamos permanecer aqui enquanto nossos animais se restabelecem da longa jornada, antes de seguirmos para a vila de São José do Duro’. Após alguns dias, os hóspedes conseguiram local mais adequado, onde pudessem se instalar com maior liberdade.”
O coronel Aureliano ainda providenciou uma mulher para auxiliar nos serviços domésticos durante a estadia do casal. Apesar da aparente tranquilidade, a presença de Sinhô Pereira logo foi comunicada às autoridades.
A polícia piauiense foi alertada e iniciou uma operação de perseguição. Em 1918, quando o grupo encontrava-se arranchado nos arredores de Caracol — segundo versões, na casa conhecida como Bolandeira, a cerca de um quilômetro da vila, ou na residência que mais tarde pertenceria a Dona Cezarina, esposa de João Xavier de Macedo, o João Caçote —, o local foi atacado por forças estaduais.
Prevendo riscos, Sinhô Pereira havia pago antecipadamente pelos serviços domésticos, como lavagem, gomação e preparo das refeições. O ataque foi liderado pelo tenente Zeca Rubens, que comandava aproximadamente quarenta homens, entre policiais e civis armados, sendo conhecido pela violência com que conduzia suas ações.
Mesmo diante da superioridade numérica dos perseguidores, Sinhô Pereira conseguiu romper o cerco após intenso confronto. Durante a fuga, carregava Cacheado, gravemente ferido, que faleceu pouco depois, nas proximidades do povoado de Jurema.
A perseguição prolongou-se por vários dias, com sucessivas marchas e contramarchas pelo sertão. Ao final, Sinhô Pereira decidiu retornar a Pernambuco, reassumindo temporariamente a vida no cangaço.
Foi nesse período que os irmãos Ferreira passaram a integrar seu grupo. Sob a liderança de Sinhô Pereira — já conhecido como o “Demônio do Sertão” —, Virgulino Ferreira adquiriu experiência, contatos e conhecimento das estratégias do cangaço. Até 1922, Sinhô Pereira manteve-se à frente do bando, quando decidiu abandonar definitivamente essa vida, refugiando-se em Minas Gerais, onde conseguiu estabelecer-se longe dos conflitos armados.
Antes de partir, nomeou Virgulino Ferreira da Silva como seu sucessor, advertindo-o de que “ainda restavam brasas a serem apagadas”. A partir desse momento, Lampião iniciou a trajetória que o transformaria no mais célebre cangaceiro da história brasileira — um desdobramento que talvez não tivesse ocorrido caso Sinhô Pereira tivesse conseguido atravessar Caracol, livremente em 1918, rumo ao Goiás.




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