Horathsmam, das bandas da Lagoa do Mato, não era homem comum. Conhecia como poucos os carreiros da vida, as encruzilhadas do destino e os atalhos que só se revelam a quem não tem medo de se perder. Tinha nos olhos a poeira das estradas e no corpo as marcas de um tempo duro, desses que não pedem licença para ensinar.
Era homem do sertão — e do mundo.
Depois dos barulhos e das guerras que agitaram o começo do século XX, sumiu sem deixar rastro, como tantos outros que o tempo engole sem dar notícia. Diziam que tinha ido longe. Uns juravam que o viram no Pará, metido com gente de seringa e mata fechada. Outros garantiam que rodou Goiás inteiro, passando fome e aprendendo a sobreviver com o que o dia lhe dava. Havia ainda quem afirmasse que esteve no garimpo de Gilbués, onde a terra promete riqueza, mas quase sempre entrega cansaço e desilusão.
Horatsmam, também conhecido por Seumam nunca confirmou nem negou. Apenas sorria de canto, como quem sabe mais do que diz.
Vivia como podia — sem eira nem beira —, feito aranha que tece a própria sobrevivência no fio frágil do dia a dia. Era forte, valente, desses que não recuam fácil. Mas não era homem de briga por gosto. O que tinha era um senso de justiça torto, moldado na dureza da vida, onde muitas vezes o certo e o errado se misturam como água barrenta de açude depois da chuva.
Deixara a vila de Caracol quando a paz voltou. Para ele, a calmaria nunca foi convite — era quase um incômodo. Havia nos seus passos uma inquietação que não cabia em lugar nenhum.
Foi em Santa Helena de Goiás que seu destino cruzou com um desses momentos que mudam a história de um homem.
Morava ali com um primo, também fugido dos mesmos tempos brutos de Caracol. Os dois viviam escondidos nos cafundós, trabalhando quando aparecia serviço, sobrevivendo quando não havia nada além da coragem.
Numa noite de festa, dessas animadas com sanfona, poeira subindo do chão batido e cheiro de cachaça no ar, o destino resolveu se mostrar.
O salão estava cheio. Risos, música e gente rodopiando davam a impressão de que, por algumas horas, o mundo era leve. Foi quando um sujeito conhecido pelas arruaças — homem de pavio curto e respeito nenhum — se aproximou de uma moça e a tirou para dançar.
A jovem recusou.
Não foi um gesto rude, mas firme. Bastou.
O homem, ferido no orgulho, mudou de semblante. Passou a ameaçá-la, dizendo que ela não dançaria com mais ninguém. As palavras viraram gesto. Agarrou a moça pelo braço e tentou arrastá-la para fora, como se fosse coisa sua.
Foi nesse instante que Seumam se levantou.
Até então, era só mais um desconhecido encostado num canto. Mas havia nele uma coisa que não aceitava aquele tipo de violência. Interferiu, pedindo que o sujeito soltasse a moça.
O silêncio caiu pesado.
O arruaceiro virou-se, agora com o ódio voltado para Seumam. Não precisou de muito. Palavra atravessada, empurrão, ameaça — e o que era festa virou confusão.
Facas brilharam no meio da poeira. Gritos cortaram a música. Alguém correu. Outro caiu.
Seumam, rápido, puxou o Smith inglês que carregava no coldre — arma velha, mas confiável. O disparo ecoou seco no salão.
Zé Encrenca — como era conhecido o arruaceiro — caiu sem tempo de entender o fim.
E assim terminou a festa.
Um morto no chão. Um forasteiro preso. E uma moça salva.
Seumam foi levado sem resistência. Sabia bem como essas histórias costumavam acabar. No sertão, justiça nem sempre segue o caminho dos livros.
Mas, dessa vez, o destino ainda tinha outra carta guardada.
Dias depois, descobriu-se quem era a jovem. Filha única de um próspero fazendeiro de gado da região, homem de influência e palavra forte. Ao saber do ocorrido, o pai não esqueceu o gesto do desconhecido que arriscara a própria vida para proteger sua filha.
Fez chegar ao preso seu agradecimento.
E mais que isso.
No Goiás daquele tempo, onde a lei muitas vezes se dobrava ao compadrio, não demorou para que surgissem advogado e juiz dispostos a resolver a situação. O caso tomou outro rumo.
Horatsmam foi solto.
Livre, recebeu ainda uma proposta: trabalho na fazenda do coronel, vida mansa, teto certo, comida garantida.
Recusou.
Não era homem de criar raiz.
Seu destino não cabia em cerca nem em promessa de sossego. O mundo era largo demais para se prender a um pedaço só.
Solteiro, sem amarras, preferia seguir rodando — sempre com algum parente distante para lhe dar pouso, sempre com uma história nova para carregar.
Quando voltou à terra de Caracol, já não era o mesmo que partira. Trouxe consigo as marcas das andanças e um repertório de histórias que pareciam não ter fim.
Instalou-se na velha casa dos pais, já falecidos, e passou a viver de um jeito que lhe agradava: contando causos.
Nas noites compridas, entre um café passado na hora e outro, acompanhado de marmotas e do famoso requeijão Cardoso — orgulho daquelas bandas —, reunia gente para ouvir suas histórias. Falava dos caminhos que percorreu, dos perigos que enfrentou e dos tempos de sangue e conflito que marcaram a vila de Caracol entre os anos de 1916 e 1918.
Algumas histórias pareciam grandes demais para serem verdade.
Outras eram cruas demais para serem mentira.
Foi nessas noites, ouvindo Seumam, que comecei a juntar as peças do que viria a ser este relato.
Histórias de sangue, de luta, de homens duros e destinos ainda mais duros. Histórias de um sertão onde a vida valia pouco, mas a honra — essa — custava caro.
É delas que nasce este livro.
Sangue e Borracha no Sertão de Caracol não é apenas um amontoado de lembranças. É o retrato de um tempo em que viver já era, por si só, um ato de coragem.
E Seumam...Bem
era o tipo de homem que não apenas vivia as histórias.
Ele as atravessava.
Comentários
Postar um comentário