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Amnésia

Ainda busco a palavra perdida no mangue dos meus pensamentos:   temporal de ideias onde são presas as expressões não ditas...   incrustações gordurosas interditam os ditos de outrora!   Quem sabe, amanhã,   um limpador de trilhos nervosos   encontre novos caminhos   para ativar a lépida memória!

DESEJO

Há muito tento   a mina...   do ouro   das Minas Gerais! Quem mais se anima   nas rimas banais   dos trópicos fatais? Dos homens sem fé,   dos povos famintos,   dos seres extintos,   ou zumbis marginais? Da arte cinzenta,   da política abjeta   que se apresenta   como farsa ou currais?

Ressaca

Alguém acena para o povo e o povo delira, Vitória, vitória, afinal! Depois... tudo volta ao normal: o duro nas docas, nas feiras, nos campos, nas fábricas, cessado o anestésico geral. Sem o canto dos mitos, louvores dos aflitos, renasce a vida real... de quem dirige a orquestra e organiza essa festa na alcova do poder central! E que o povo não esqueça, por mais que santo pareça, os prazeres dessa esbórnia: migalhas do céu! Levanta-te, ó povo, da opressão! Que teu canto seja  contestação, Contra as mãos que te iludem, Nas sombras do poder! Não corra0s atrás do vento, Não exultes na ilusão. Luta pelo teu direito, Pelo suor e pelo pão!

Reflexão

— O que levas nessas águas turvas? — diz o homem na curva do rio, que segue, indolente, com sentimento de culpa. — Escondes o lixo humano que trazes de outras plagas, tingindo de escombros tuas águas, tecidas de mágoas, de onde jazem, sem esperança, tuas nascentes! E não muito além, só encontrarás jazigo... E todos a montante, a jusante, em breve, morreremos contigo.

Mea Culpa

MEA CULPA Eu te amo, Embora meu polimorfismo brutal Te deseje com intensidade. Sinto que nem percebes, Pois tua estoica resiliência Bloqueia teu entendimento de mim. Assim, esse amor atônito  Vive no âmbito do não ser. As palavras que não digo Ecoam no vazio do silêncio, E o desejo reprimido Transforma-se em dor contida. Cada gesto teu, um enigma, Que minha alma decifra no no silêncio, em segredo, Numa dança solitária e melancólica. Meu coração, uma fortaleza frágil, Resiste à tempestade dos sentimentos. Tua presença, uma chama distante, Que ilumina, mas não aquece. E nesse jogo de sombras e luzes, Nos perdemos no labirinto De um amor que não se concretiza. Mas mesmo assim, eu te amo, Com a força de um furacão contido, Com a delicadeza de um sussurro não ouvido. E aceito, resignado, meu destino, De amar-te na eternidade do não ser, Onde as palavras são prisioneiras do silêncio, Enquanto julgas,o amor, uma promessa não cumprida.