Pular para o conteúdo principal

Postagens

O filão contumaz...

Malaquias era um marceneiro renomado naquela vila recém-criada, apesar da oposição dos dirigentes do município do qual fora desmembrada. O mestre Malaquias, juntamente com outros marceneiros, pedreiros e serventes, havia chegado ali para a construção das várias casas que surgiram com a emancipação da vila de Caracol. Duas dessas edificações ficaram na memória da população pelos frontispícios artisticamente trabalhados, com a data de suas construções e a fundação da vila: 1912. Eram as residências do Sr. Jaime Figueiredo e do Sr. José Emiliano Paes Landim. Voltando ao Sr. Malaquias, ele era um senhor respeitoso, um artista da madeira, e cheio de anedotas, muitas delas engraçadas. Mas naquele dia, o Sr. Aristeu Fonseca, comerciante de tecidos e dado a pilhérias, resolveu tirar sarro do velho carpinteiro. Malaquias costumava pegar carona nas refeições do meio-dia, chegando sempre na hora do almoço para conversar com seu patrício. Quando Malaquias se aproximava para juntar-se aos amigos qu...

A Família Bento

Hoje fiquei sabendo do falecimento do Pedro Bento, o último dos filhos do velho Júlio Bento Antunes. Neste momento, lembro-me de Júlio Bento, morador e comerciante de Caracol. Ele era uma pessoa alegre, uma figura afável, de riso franco (era gostoso ver e ouvir suas risadas, só igualáveis às do seu irmão Benício). Como ninguém, ele sabia muitas histórias e as contava nas noites em que muitos se reuniam na calçada de sua casa, extensão da sua quitanda, para falar de política, polícia e dos barulhos da década de vinte. Foi ali que eu, ainda menino, sempre acompanhando meu pai, "seu Januca", ao lado de outras pessoas da cidade, ouvi falar do "Seu Leobas", político do Remanso, e do Coronel Franklin, do Pilão Arcado, personagens de muitas lutas, vinganças de morte e violências no sertão norte da Bahia, fronteiriço ao nosso sul do estado do Piauí. Seu Júlio Bento era um exímio contador de causos, porque vivenciara alguns deles, mas também personagem de muitas lorotas que ...

Personalidades populares de Caracol: anos 60/70/80.

A história de cada cidade é contada não apenas por seus monumentos e eventos marcantes, mas também pelas pessoas comuns que deixam sua marca ao longo das gerações. Na pequena Caracol, onde cresci, havia uma galeria de personagens únicos que, de alguma forma, deixaram sua marca, mesmo em uma época em que o politicamente correto não era uma preocupação. 1. **Capão (Augusto)**: Com distúrbios na fala, mas de entendimento aguçado, era criado pelo Tio Jaime Figueiredo e aliado político do Sr. Walter Figueiredo. Apelidava todos de "caponguinha" e ajudava nos afazeres domésticos, incluindo buscar água na lagoa. 2. **João Velho**: Irmão de Capão, também com distúrbios na fala, era analfabeto e fazia pequenos serviços. Uma vez, ao separar varas de cerca, dividiu-as em "finas" e "gochas". 3. **França**: Uma mulher solitária que passava roupas para se sustentar, com sua magreza notável que a fazia parecer uma alma penada. 4. **Maria Olho Pra Cima**: Apelidada devido ...

O Enigma

Naquele dia, todos se alegraram com a boa nova: um dentista prático estava chegando para residir na cidade. Nos anos sessenta, era uma tarefa árdua fixar um profissional com nível superior em comunidades tão distantes e pobres como a nossa. Organismos oficiais e internacionais, como a OMS e a OPAS, até estimulavam a prática de profissionais sem formação superior, dada a escassez de cuidados médicos, especialmente odontológicos, nessas regiões remotas. O recém-chegado protético, alto, louro de cabelos ruivos, usava um chapéu de aba "Ramenzoni" e tinha um jeito peculiar. Seu nome era Robespierre Gomes Siqueira Campos, originário de Pernambuco, segundo ele mesmo afirmava. No entanto, sua presença na cidade causou estranheza, já que havia um outro Gomes Siqueira Campos, o Sr. Raimundo, conhecido como Dudu pernambucano, casado com Dona Marota. Robespierre se instalou na casa da Dona Nenê do Joca, próxima ao armazém do pai do narrador. Logo, o narrador começou a ajudá-lo em seu lab...

EVOLUÇÃO POLÍTICO- ADMINISTRATIVA DO MUNICÍPIO DE CARACOL

A título de explicação por que Caracol teve duas emancipações: uma como Vila e outra como Cidade. No Brasil durante muito tempo, a data correta da fundação de municípios antes da  Proclamação da República  era o dia da criação da vila. Com a vila o arraial ou a freguesia adquiria a sua autonomia político-administrativa, sendo  governada por um Intendente , uma  câmara de vereadores , ou conselheiros que podiam baixar "posturas", que eram espécies de leis municipais, um coletor de  tributos com direito de cobrar impostos, recebia ainda um  juiz de paz, e uma cadeia pública. O título de cidade, durante o início da era colonial, era de caráter honorífico e pouco acrescentava em termos de organização política e administrativa. Unicamente a presença da câmara indicava a existência da célula político-administrativa. Por isto, hoje, equivocadamente, muitos municípios brasileiros criados no período imperial ou durante a colonização portuguesa comemoram o dia...

Saúde para todos até o ano 2000.

Em 1977, durante uma Assembleia Geral, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um grande desafio aos membros das Nações Unidas (ONU): o movimento SAÚDE PARA TODOS. Até hoje, essa meta ainda não foi alcançada. Mas o que significa saúde para todos? Como essa meta pode ser caracterizada, considerando que a OMS define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças? Essa definição amplia o conceito de saúde ao incluir o elemento social, e, infelizmente, o que observamos em grande parte do mundo é a falta dos elementos essenciais para a saúde, como saneamento básico, educação sanitária, higiene alimentar, habitação adequada e salários dignos que atendam às necessidades individuais e familiares. Não queremos ser pessimistas, mas é evidente a necessidade de um grande esforço de todos os governos e países, especialmente dos chamados emergentes, para implementar reformas amplas não só no setor da saúde, mas também nas esferas política, ...

O bode expiatório da Crise Energética .

 com a máxima eficiência:Para Sobretaxar Danosamente os Brasileiros(PSDB). .Artigo publicado no período do apagão  de energia no governo FHC/,no Diário do Povo. O governo federal, mais uma vez, na tentativa de ocultar sua incompetência em relação à política energética e na ânsia de fazer caixa para atender às exigências de organismos financeiros internacionais, acaba de elaborar um "plano de racionamento de energia" que, como em outras ocasiões, penaliza a classe média, sempre chamada a pagar pela incúria e irresponsabilidade de governos que negligenciaram investimentos no setor elétrico. Ao afirmar que desconhecia a iminência de uma crise, o governo apenas agrava sua responsabilidade pelas consequências desse plano discriminatório, injusto e, na visão de muitos juristas, inconstitucional. O aspecto mais criticado do plano, que tem provocado repulsa entre os usuários do sistema, diz respeito à sobretaxa. O governo impõe uma redução de 20% no consumo médio trimestral de energi...